Contos

O MULHERENGO.

Minha vó dizia que não era grande coisa de se fazer escândalo um homem querer amantes, mulheres fora do casamento; segundo a tradição, a legítima tinha mais é que fingir que nada acontecia, essas coisas de manter o patrimônio e a família. Não sei até hoje se ela dizia isso por experiência própria, ao que tudo indica; vovó apenas seguia e mantinha essa tradição de séculos, nada mais sabia dessas coisas, a não ser continuar. No entanto, ainda de acordo com minha sábia vozinha, o cabra precisava ter cacife para poder fazer isso, ou seja: dinheiro suficiente, domínio sobre seu lar e certa maturidade, além de conseguir dar conta de todas.

Talvez isso pudesse ser verdade na época de minha avó, mas hoje em dia já nem precisa de tanto. O que minha vó não sabia é que às vezes todo esse processo pode trazer algumas tristezas na vida de um homem. Ou seja: ser mulherengo também proporciona decepções, não pensem que é tudo uma maravilha.

Meu amigo Claudionor por exemplo: rapaz novo, boa pinta, não tinha chegado aos quarenta ainda. Atrapalhado que só, um clichê! Tinha umas três donas ao mesmo tempo e se embaraçava com todas elas, tanto que tinha de se livrar de duas, até arrumar outras três, pois que o rapaz não se contentava com pouca xoxota. Para não perder nenhuma oportunidade de fodança, marcava a torto e a direito com todas, sem pensar com muita responsabilidade se seria possível ou não – mesmo tendo a patroa em casa, o que, apesar das ocasionais dores de cabeça, não deixava de ser o certo antes do duvidoso. Diversas vezes deixou três na mão, para não se encrencar com uma. Pouco se importava se as donas tinham de fazer malabarismos com os respectivos cônjuges (sim, ele preferia as casadas ou bem comprometidas, pois moças solteiras e livres partiam para aquelas ideias tolas de querer namorar, andar de mãos dadas romanticamente, e isso era perigoso, além de ser mais difícil de dar no pé quando o fogo acabasse). Claudionor sempre teve a plena convicção de que havia certas ladies que não tinham plena consciência de seus devidos lugares nessa safadeza toda, ora que santa ingenuidade. Jogava para elas um dia e um horário e depois deixava-as a ver navios, com a siririca na mão, nem se dava ao trabalho de mandar um aviso sobre o cano que ia dar. O que importava era garantir com antecedência, como se faz com reserva de qualquer coisa: reserva-se antes a vaga no hotel, o carro, o ingresso do timão, o engradado de cerveja ou a peça de picanha, que seja; e, se não for usar, nem se dê ao trabalho de cancelar a reserva, pois o mercado estava para peixe graúdo e de sobra, pelo menos para o Claudionor, cujo único pensamento girava em torno do próprio umbigo. Melhor: girava em torno do próprio pinto, do qual se orgulhava feito menino descobrindo o mundo.

Mesmo assim, com toda essa falta de sensibilidade com as ladies, esse meu amigo nunca ficava sem alguém que pelo menos lhe depenasse o sabiá, aqui e ali, entre outras e tantas. Lugar para tal não era problema: atrás de banca de jornal, debaixo da escadaria do metrô, banheiro público dos botecos da periferia, elevador que não tivesse o famoso sorria, você está sendo filmado, bancos de praça e de parques públicos, enfim, qualquer canto onde houvesse espaço para um fuc-fuc rápido ou médio para espalhar a porra toda – literalmente. Dinheiro para ele era coisa do normal, nem muito nem pouco. Dava para garantir algumas cervejas e quartinhos de hotel por algumas poucas horas. Essa história de que só os graúdos da política ou poderosos empresários é que têm amantes, pura conversa de filme fantasioso, qualquer um conseguia, pelo menos por algum tempo, inclusive o Claudionor.

O problema, então não foi esse.

O pobre rapaz se estrepou, pode-se dizer assim, com uma das donas, quando começou a insistir naquela coisa de ménage a trois, fantasia de séculos de todos os machos que se dizem machos de verdade. A garota da vez era cliente da firma – Francine era seu nome – logo deu mole para o Claudionor e os dois começaram a putaria, como diriam os mais conservadores hipócritas, em menos de uma semana. Depois que saía do primeiro turno de trabalho na empresa, encontrava-se com a lady Francine, quase sempre chegando atrasado para o segundo turno, pois que Francine era insaciável. Além de ela ser perfeita por se encaixar nos horários em que ele podia dar suas escapadas costumeiras, portanto nem precisava fazer muito esforço para trepar, ele adorava o jeito dela de atingir o orgasmo, em jatos, como um chafariz, e logo viciou naqueles procedimentos nada delicados. Mas, como sempre, o que é muito acaba enjoando, caindo na rotina. E para que cair noutra rotina se já tinha uma em casa? Ao mesmo tempo, ele ainda não queria deixar de ter os encontros com a doninha, nunca se dispensa assim algo que jorra tão gostoso na sua cara, o gozo do prazer ilimitado. Então quando a coisa começou a cair na mesmice, inventou o tal do sexo a três. A garota ficou receosa de início, mas foi só de início mesmo: em poucos dias, eles já tinham acertado com outra dona com quem ele já tinha desfrutado dos prazeres clandestinos; e lá foram os três para a aventura maravilhosa.

Era a primeira vez para todos eles. Claudionor, no caminho, conduzia o carro com sorriso débil de felicidade e se encolhia com arrepios de júbilo só de imaginar a safadeza, o revezamento nas duas xoxotáveis sedentas. As duas donas estavam meio assim-assim uma com a outra, principalmente Francine – talvez espécie de sentimento de posse – que já tinha dito que a porra toda dos finalmentes seria dela, isso não dividiria com nenhuma sirigaita.

Rapaz, veja só como é que um cara esfomeado acaba metendo os pés pelas mãos! E não é que, logo nas preliminares, as duas donas acabaram se entendendo melhor do que se esperava? O vergalhão do Claudionor ali, apontado para o infinito e deixado de lado, as duas donazinhas se empolgando uma com a outra e findaram o ato deixando o pobre com o mastruço na mão, tendo ele de terminar sozinho e por conta própria o que tinha começado, como simples voyeur, tal qual se diz em francês muito mal francesado. Não teve nem chance de protestar, as coisas foram acontecendo tão rápido, que, quando ele se deu conta, ninguém mais nem ouvia seus suplícios. As duas ali, contentes e ativas, e ele do lado, com a expressão entre o espanto e a humilhação, diante de tão pouco caso por parte de suas parceiras.

Sabe-se que Claudionor ficou de luto por alguns meses. O marido de Francine acabou desconfiando, tiveram de parar com a safadeza toda; findaram-se os encontros, tanto com Claudionor, quanto com a garota do ménage, com quem Francine acabou se encontrando por diversas outras vezes (só elas duas) para repetir a dose, de tanto que gostou.

Claudionor ficou bem triste e desolado, sentindo-se pouco capaz, encafifado demais com a própria virilidade, porque é difícil aceitar a rejeição assim tão de pronto, ainda mais em dose dupla, num dos momentos de realização mais esperada de uma fantasia. Mas claro que isso passou logo: ouvi dizer que hoje ele anda saindo com uma atleta, uma ciclista com quem faz sexo selvagem até no Pico do Jaraguá.

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FESTA DE CASAMENTO

CLICK! Bateu ele a foto da amada esposa – amada mesmo? e o que é o amor em alguns casamentos, senão o aconchego do cheiro de cebola frita? – com os três rebentos pendurados na barra do vestido curto, bastante decotado e um pouco menor do que tudo aquilo que ela tinha. Prontos para o casamento! Ele nunca usaria terno e gravata; ela usava algo que a fazia parecer um botijão de gás que vai a um casamento. Um biquinho francês para parecer Marylin Monroe – caso ela tivesse conseguido envelhecer, e com vários quilos a mais. Uma gargantilha brilhante enforcando sua papada flácida, brincos enormes combinando. Sentia-se poderosa, pois uma festa de casamento era tudo na vida, além do privilégio de ser mãe, claro.

Lá no fundo dos olhos da alma – ele – a tristeza de estar onde queria, mas onde não queria realmente estar. Então era como se fosse uma alegria. Satisfação. Realização. Mantinha a motocicleta para ganhar tempo no trânsito, mas sempre aconselhava responsável, pai, marido, homem de bem: mas tenha um carro para a família. Oh, que homem de bem, que cidadão admirável, que linda pessoa que tem tantos filhos e uma esposa anulada pela maternidade escolhida – bem escolhida – nunca fora muito brilhante, era pedra que se disfarçava de diamante falso, mas que sabia a hora certa de se anular, para depois surgir poderosa entre as trevas da não solidão que tanta gente em casa não existia. Tinha de mostrar ao mundo que ser mãe consistia em algo realmente maravilhoso, caso contrário, ela não seria realmente maravilhosa! Só sabia ser mãe! não que fosse pouco, talvez não. Mas ela gostaria demais de convencer todas as mulheres do mundo de que só assim alguém poderia ser realmente maravilhoso.

Além do mais, não ter a esposa trabalhando fora significava segurança de quem tem o direito de trair sozinho. Sossego. O que mais um homem de bem poderia desejar para toda uma vida tão triste, tão carente de conversas empolgantes? Conversas inteligentes servem para quê? Para chatear o sossego, a ordem e a segurança. A ordem das coisas de como a vida tinha de ser. Conformou-se.

Noiva entrando, noivo entrando pelas veredas divinas da Santa Igreja Católica. Os meninos incomodavam um pouco, mas eram seus meninos e quando se é “seus meninos”, que se dane o incômodo. Quem seria capaz de fazer tantos meninos e ainda comer xoxotas sem ter grandes problemas na vida? Só ele mesmo, que sujeito de sorte! Às vezes achava que nem merecia tanta felicidade, já que a felicidade sempre tinha sido inventada. Quem sabe quando chegasse à aposentadoria.

Mais fotos, a festa tinha de ser registrada, ela gostaria de provar ao mundo que a felicidade residia em suas escolhas simples, quem poderia negar? Ela tinha vencido na vida, sem ter carreira, sem ter dinheiro, sem ter independência, sem ter sido mulher moderna nem fabulosa; cada pessoa tem seu diferente em relação a vencer na vida. Não admitia o que pensava, mas, no fundo, no fundo, como aquela janela de alma tão triste de seu marido, achava que o feminismo era coisa de mulher que não tinha marido nem filhos. Mulher só poderia ser mulher, caso tivesse marido e filhos, senão para que serviria ter útero e óvulos? Deus jamais faria algo que não servisse para nada. A inutilidade das coisas estava na mulher que trabalhava, ela nunca precisou de liberdade, sentia-se realizada mesmo presa nos dogmas do santo matrimônio e que seu marido virasse do avesso para manter a ordem e a segurança no lar. Tinha preguiça de pensar, de fazer relações; gostava de pensar nas estratégias espertamente femininas para manter o marido em casa – triste, mas marido, mas provedor, triste, embora feliz, pois sem nada daquilo, o que seria do nada de sua existência? Filhos: obsessão pelo falo, prova inconteste da virilidade, de que o casamento não é só fachada. Família cura até psicopatas, os americanos acreditavam nisso. Se fizeram filhos, é porque o sexo existe, senão não seria casamento, mesmo que por alguns períodos o sexo não exista mesmo. O sexo no casamento não é tudo. O tudo sou eu e comprovado está.

Mas sua janela da alma tão triste, o que será? Sentia-se deslocado, constrangido, ou apenas cansado porque teria de trabalhar no dia seguinte? Aquele olhar de “que horror” quando bateu a foto com a mulher abrindo a boca fingindo espanto e o menino mais novo com a mania de fazer caretas tolas quando pousava para fotos; a janela de sua alma achou muito feia a esposa com cara de Marylin tonta e velha, feito espanto bonito que era horrível. E sempre foi tão atento para não cair em teias e tentáculos que acabassem com sua liberdade, quem diria. Fácil explicar: aqueles tentáculos eram aceitos e ele não mais se sentia só, embora às vezes desejasse muito o vento no rosto.

Depois da festa, meninos dormiam, o vestido comprado para o casamento amarrotava e naquela noite para ela o sexo seria bem vindo. Ora, que completude de fim de sábado! Família linda, esposa Marylin-gorda-velha, mas Marylin, e todos a achavam incrível, soava como a normalidade necessária.

Mas aquela janela de sua alma tão profunda, água brilhante que chora tão mansinho, lá no fundo, bem lá no fundo da janela da alma dizia: quem sabe quando chegar à aposentadoria.

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A SOCIEDADE QUE QUER MATAR OS POETAS MORTOS.

O professor pensava, enquanto a menina magricela-de-olhos-azuis ousava questionar a nota oito tirada no trabalho da feira de leitura: essa criatura deve ter o quê? Dez, onze, no máximo doze. O que ela está me dizendo? Já nem ouço, porque ela faz questão de gritar sua autoridade conquistada á custa do sucateamento da minha mais valia, como diria aquela minha sábia amiga HISTORIADORA.

“Eu sou ótima na escrita, professor, você não vê não? Merecia no mínimo dez! Tudo isso é uma injustiça, uma injustiça! Não vê?”

Ah sim, ele via. No máximo – já que o dez era o mínimo para ela – também mereceria que o mundo todo girasse ao seu redor. Ele tinha de ver, senão ela não pararia de vomitar sobre ele tanta genialidade conquistada à custa do sucateamento de sua mais valia.

Pediu que ela se sentasse, ele repensaria a nota. Disse isso somente para obter sua mudez e finalmente conseguir alguns minutos de respiração pausada. Ela obedeceu, como se não tivesse obrigação nenhuma de obedecer a alguém tão mais velho, como se ele fosse um operário de minas de carvão da Inglaterra do século XIX, para quem o destino reservou apenas a constante tarefa de perder o ar nas cavernas escuras e morrer com a cara suja de tanto perdoar. Olhou para a sala de aula inquieta, ninho de gente prestes a alcançar o mundo, algumas dezenas de elementos inconstantes, com pensamentos moldados conforme a maior parte da humanidade esperava: que seria do mercado de trabalho sem trabalhadores, apenas com aqueles futuros profissionais liberais que tinham a escrita merecedora de no mínimo nota dez?

A beiçudinha-branquela olhava para ele; parecia saber de tudo aquilo que ele amargamente pensava a repeito dela, de sua birra mesquinha quando contrariada em suas vontades mais mimadas. Caso fosse contrariada, suas atitudes enchiam-se de ódio patético, aquele tipo de ódio que não consegue atingir fatalmente, mas que deseja ver mortas as pessoas que ousam contrariar qualquer vontade sem razão. Ela agredia com a mesquinhez de adulto, jorrava frases horríveis do tipo você tem de explicar isso de novo sim, professor, é seu trabalho, como pode você não fazer direito seu trabalho? Você tem de explicar quantas vezes eu quiser, já que meu pai paga por tudo isso que você diz não ser justo fazer, ora, ser justo é algo muito vago para se materializar na vida prática do mercado de trabalho.

Será que alguma novela mexicana de má qualidade ainda tinha falas assim tão eternas quanto sua feiura?

Até aquela menina-bizarra-de-tiara com lacinhos brilhantes, borboletas de asas enormes, diamantes falsos em fileira rodeando-lhe a pequena cabeça de cabelos crespos rigidamente penteados e presos em rabo de cavalo – notas excelentes e bem fabricadas – até ela toda certinha falava alto, era preciso mesmo gritar. Por trás de toda certeza sobre o bem e o mal, os olhos dessa menina eram zombeteiros, principalmente quando ele se esquecia de algo que tinha prometido na aula anterior, era proibido um professor esquecer qualquer coisa, quem tinha esse direito nunca poderia ser professor – a brincadeira do bingo de palavras, professor, você esqueceu que hoje é o dia da semana que jogamos o bingo de palavras, professor, meu deus do céu! – e falava alto, decibel acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Engraçado como cada olhar daqueles meninos parecia adulto, daquele tipo de olhar que transpõe a alma, cheio de cobrança mesquinha, mesquinhezas típicas de alguma parte da humanidade certa de que podia cobrar. Olhava para ele por cima dos óculos, uma menina-avó que zomba do cansaço alheio e ao mesmo tempo diz vou acabar com você, ainda que demore alguns dias…

Havia também a grandona.  Entre crianças, parecia ter vinte e poucos anos, não só pela grandeza, mas pela voz grossa, potente – e alta. Tudo era motivo para ela dizer meu pai vai processar esta instituição! A voz, retumbante e grosseira como os modos da grandona, soava sempre ameaçadora, autoritária – e provocava as pessoas a retrucar-lhe as palavras jogadas no discurso pronto de defesa. Adorava afirmar presença, para depois se retirar sem mais nem menos, deixando algo a fazer, algo de que todos precisavam no grupo. Quero ser a monitora nessa semana, professor! No dia seguinte não queria mais; brincava. O professor certo dia tentou educar: “quando for adulta, tiver de trabalhar, não vai poder deixar de lado desse modo as coisas com que se comprometeu!” Ela sacudiu os ombros de forma a dar bem a entender que pouco se importava. Pouco se importava com ele e com qualquer pessoa. Meu pai processa e daí deixo de lado o que eu quiser. Mesmo porque talvez nunca tivesse de trabalhar de verdade, já que seu mundo dificilmente se faria tão real.

O bem-nutrido-sardento gargalhava alto sua voz rouca, balançando seus excessos em torno da cintura, que se espalhavam quando praticava seu andar de adulto insolente – homem gorducho que anda de bermuda e camiseta, segurando a carteira numa das mãos, nas calçadas em frente a lojas: empinava o nariz como pequeno homem para quem o dinheiro nunca seria problema. Talvez nunca tivesse ainda estudado profundamente História do Brasil, mas conhecia bem os processos e as relações escravistas, pois havia algo de senhor de engenho malvado em seus gestos. Suas chibatadas se faziam em forma de palavras horríveis: vem aqui, professor, precisa explicar isso aqui que eu não entendi. “Fazer favor de quê?” Por que você usa esse rabo de cavalo, aliás, esse cabelo comprido, se é homem? Às vezes o professor, quase que involuntariamente, vingava-se: “porque não quero ser igual a você quando crescer, menino.” Como ainda não compreendia bem o sarcasmo – sentia, decerto, nunca deixou de sentir – mudava de assunto, como se qualquer coisa que aquele professor bicho grilo pudesse dizer não tivesse qualquer importância: você parece um hippie, daqueles que não tomam banho. Dá para você vir aqui agora, me explicar esse negócio que eu não entendi ou não?

Se ele não fosse, obviamente a desfeita chegaria aos ouvidos da desajeitada e amadora diretoria. Homens de negócios ficavam irritados quando clientes reclamavam insatisfeitos, mas também não sabiam como agradá-los, sabiam apenas do constrangimento de não saber lidar com coisas lucrativas e problemáticas. Desajeitados e amadores, coisa sem atualização, como se vê muito nesse mundo que já tinha inclusive ultrapassado os limites da miséria humana. Agora seria o quê, que nome poderia ser dado? Talvez nenhum, já que nomear significava existir.

Resolveu então ler uma história nunca antes conhecida por eles. Quem sabe a literatura fizesse algo que ele não tinha mais disposição para fazer: humanizar espermatozoides crescidos, coisinhas que pareciam nunca ter encontrado um óvulo-mãe, pois não se dividiam, nada compartilhavam, mesmo entre eles. Deduravam uns aos outros, não existia naquela turma – isso um fato bem atípico – união. Grupos se desfaziam, as meninas abraçavam-se numa semana e, na seguinte, pegavam-se a tapas, ofendiam-se de maneira terrível, xingavam a mãe uma da outra e toda a leva de antepassados. Crianças não eram bem assim; não havia qualquer tipo de afeto ou fidelidade. Vez ou outra acontecia, quando havia interesses comuns, interesses banais e de plena satisfação momentânea, como sair cinco minutos antes de soar o sinal. Nessas ocasiões eles se uniam lindamente, como manifestantes exigindo melhores condições de trabalho. Mas durava bem pouco o romantismo da união. Mal eram liberados, saíam feito gado em susto, atropelando uns aos outros em uma competição bastante desumana – pisoteariam, se fosse necessário, naquela liquidação de roupas de inverno.

A história escolhida tinha algo relacionado a tragédias com bichos de estimação, achou apropriado para a idade daquelas criaturas destituídas de qualquer rótulo já existente. Perda, abandono, ausência. Achava que toda aquela postura deles tivesse a ver com tudo isso: perda, abandono, ausência. Não do tipo que se conhece pela televisão, de crianças de rua, desnutridas, pais drogados etc, etc. Esse tipo de assunto já tinha tentado e foi um fracasso assustador: eles nem de longe se sensibilizaram, inclusive teve de acordar o sardento-bem-nutrido, entediado por algo que não lhe atingia. Contudo, perda, abandono e ausência em crianças bem nutridas podem criar seres totalmente destituídos de humanidade, acreditava o professor; portanto poderia ser algo bem pior do que qualquer outro tipo de perda, de abandono, de ausência, se é que havia ainda espaço para coisas piores.

Nos dois primeiros parágrafos ainda fizeram silêncio. Logo em seguida começaram os risinhos, as brincadeiras paralelas, a agitação de quem nunca quereria se acostumar com águas paradas e falta de vento. Teve de interromper a leitura três vezes, para chamar a atenção da beiçudinha-branquela, pois ela se virava para a colega de trás, a fim de falar mal da amiga com quem tinha brigado no dia anterior. A grandona-da-voz-autoritária deixou propositalmente escapar um “nossa, que gente tosca essa daí, esse drama todo por causa de uma história de cachorro, eu hein”. Então o professor fechou o livro, mais uma tentativa frustrada de atingir a alma daquelas criaturas tão distantes do mundo ideal. Ninguém reparou no gesto esgotado do professor, a não ser a grandona, temerosa e ao mesmo tempo ousada – e Margarida.

Sim, Margarida. Ele viu nos olhos da menina miúda e pálida algo como desespero de nunca mais saber o final de uma história e, para ela parecia que uma história jamais poderia morrer sem sequer uma oração. Em meio a alguns cactos, o professor descobriu Margarida, tinha quase se esquecido dela.

“Parem, Margarida rompeu o asfalto!”

Diante dessas palavras, para eles enigmáticas, pesou o silêncio. A beiçudinha-branquela ainda fazia caras e bocas de despeitada, havia sido interrompida no clímax da história sobre a briga com a amiga, no dia anterior. O bem-nutrido-sardento deu sua risadinha, aquela que tentava certa superioridade diante do desconhecido que tanto temia. Sua risadinha infame dizia infamemente: xi, o professor pirou.

Mas Margarida tinha os olhos risonhos, foi o máximo que conseguiu expressar, para não ser aniquilada pela turma toda. Alívio, contentamento, algo como esperança de terminar uma história. O professor, ansioso por não perder o momento tão raro, rapidamente procurou a página em que tinha interrompido a narrativa que contava ainda de modo tímido, para reabri-la em êxtase. Interpretou cada palavra, cada entoação necessária. Com medo de perder o instante, olhava rapidamente para eles, para logo voltar os olhos às linhas de palavras que se estendiam no papel branco. Olhava para Margarida, encolhida na satisfação de seu desejo de direito a um final; entre os demais, alguns estavam bravos, emburrados, encurralados por algo invisível que os impedia de falar, de rir, de não ouvir. Olhavam para ele com certo ódio de homens bancários e banqueiros que seriam um dia, microempresários do bem, tementes a Deus, talvez a um deus que os ensinasse um dia a ler uma história, quem sabe, quem foi que nomeou aquela coisa que se chama esperança? Depois de ter visto – talvez ter visto – os olhos úmidos de Margarida ao terminar de ler a história, o professor ponderou que haveria chance de poetas mortos nunca morrerem definitivamente.

 

O MISTÉRIO DA ENGASGAÇÃO –  PARTE I.

 O delegado Taranto, no dia seguinte da madrugada quando estava de plantão e encontraram os cadáveres após o chamado dos vizinhos, lia a manchete do jornal, em casa, almoçando com a esposa. Jamais pensou que teria de resolver um caso de arquivos X, antes de se aposentar – faltavam apenas dois meses – como sempre acontecia com seus heróis de seriados americanos:

 QUATRO CORPOS ENCONTRADOS EM CASA DE FAMÍLIA NO SUBÚRBIO. POLÍCIA NÃO DESCARTA POSSIBILIDADE DE HOMÍCIDIO.

Na madrugada desta segunda-feira, 25, a polícia invade a casa da família Domingues, após ter sido acionada por vizinhos, que ouviram crianças chorando. Foram encontradas ao lado dos corpos dos pais, na pequena cozinha da casa recém-reformada. Sobre a mesa, algumas garrafas long-neck de cerveja mexicana. Eram dois casais, Joseli Reggatone (54), do lar, o marido funcionário público Antenor Matinez (45), e o casal dono da casa, Rafael – gerente bancário – e Paulina Dominguez, microempresária, ambos de 43 anos. A causa da morte, de acordo com o legista, foi sufocamento por fatia pequena de limão. Acredita-se em que os mortos foram brindar com a cerveja mexicana, que geralmente é ingerida com pequena fatia de limão em forma de lua minguante, e acabaram engasgando com a fruta, que entalou em suas gargantas. O mais intrigante deste caso é o fato de todos eles terem se engasgado ao mesmo tempo, de maneira harmoniosamente sincrônica, como se tivessem combinado. Dona Rutileia, 46, a vizinha que ouviu as crianças chorando e chamou a polícia, disse que sempre via o casal chegando com suas crianças, mas não os conhecia pessoalmente. “A gente olhava para eles e eles nunca nos cumprimentaram, sabe aquele tipo de gente bem deslocada, parecendo vir de outro planeta? Então, eles eram assim, tipo caipiras que não sabem se comportar socialmente. Vai ver por isso viviam apenas enfiados aí”. Outros amigos do casal, nos depoimentos iniciais, afirmaram que Joseli e seu marido visitavam Rafael e Paulina, todo final de semana, “parece que não tinham nada mais de interessante a fazer, a não ser virem aí e encher o bucho de cachaça e comida” – disse Lucinda, antiga amiga de Joseli. “Nossas relações estavam meio estremecidas, porque eu e meu marido cansamos de sustentar gente que se enfia na casa dos outros para encher a cara de graça. E imagine que ainda levavam os cinco filhos, lindas crianças, mas que destruíam tudo em casa! Desde que demos algumas indiretas, eles passaram a frequentar quase sempre a casa do Rafael.”

Familiares das vítimas, inconformados, não acreditam na versão de acidente doméstico da polícia. Liandra Reggatone, irmã de Joseli, mencionou uma conspiração contra o cunhado, que andava metido em negócios clandestinos, fazendo bicos com contrabando de pequenos eletroeletrônicos. “Vivia comprando essas coisas na Internet e, como a família aumentou muito de um dia para o outro, tinha que complementar a renda da família; minha irmã não conseguia mais trabalhar como antigamente, estava cansada dessa vida”, conta Liandra, em prantos.

Joseli e Antenor tinham cinco filhos, quatro deles com idades de dois, três, quatro e cinco anos. O mais velho, de quinze, não acompanhou os pais na visita aos amigos nesse dia, estava no shopping center do bairro, com amigos do colégio. Rafael e Paulina tinham uma menina de quatro anos, razão pela qual não foi possível o socorro mais rápido: as crianças não sabiam como chamar a emergência.

O caso foi registrado na 67ª. DP e o delegado responsável de plantão, Agenor Taranto, 62, afirma que, embora muito bizarra, a morte dessas pessoas mais orienta a investigação para acidente doméstico, mas que vai trabalhar detalhadamente com todas as possibilidades, inclusive de suicídio coletivo ou homicídio, antes de fechar o caso: “se formos pensar bem, qualquer acidente doméstico é bizarro e, quando acontece com adultos que levam essa triste e difícil vida, as pessoas começam a fazer especulações absurdas. Vamos aguardar os laudos e as investigações, para podermos definir o caso”.

As crianças, ainda muito pequenas para entenderem a gravidade da situação, encontram-se sob a custódia temporária de parentes próximos às vítimas.

O delegado Taranto fechou o jornal nervoso. Não tinha dito bem aquilo, esses jornais mudam tudo o que a gente fala. A esposa gentilmente pousou a mão sobre a dele, dizendo que ficasse calmo, para a pressão não subir.

“Mas, Clotilde, homicídio? Me explica, minha prenda, como é que alguém mata outro com uma fatia de limão na garganta? Sem lesões corporais, sem sinal de arrombamento e quatro pessoas ao mesmo tempo? Esses repórteres têm uma imaginação incrível! Inventam a coisa sem pensar na lógica dos fatos. Daqui a pouco vão começar a dizer que foram hipnotizados por extraterrestres! Valha-me Deus!”

A senhora Clotilde sorriu. Depois sabiamente disse: “meu querido, de repente, você sabe, em toda lenda pode existir um fundo de verdade”.

“Minha, prenda, minha prenda… O mais simples sempre é o mais provável. Os caras se entupiram de cerveja, as mulheres não paravam de falar besteira, os homens não paravam de proclamar bobagens; daí a engasgar com o limãozinho é um passo só! Homicídio… valha-me Deus! Parece que esse povo adora mesmo é uma desgraça, desde que seja com os outros!”

“Mas, bem, você há de concordar que é muito estranho quatro pessoas se engasgarem de uma vez só, na mesma hora, ainda mais com uma fatiazinha de limão…” – dito isso, ela fez o sinal da cruz.

“Ora, mas quê! Gente distraída, que enquanto come, pensa no peru; enquanto trabalha, pensa nas contas… a assim vai. Quando vai engolir, esquece que está engolindo. Para mim, engasgaram foi com a burrice, que Deus me perdoe!”

Dona Clotilde meneou a cabeça:

“Afe, isso nem de longe é coisa de Deus”.

(To be continued)

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O ALMOÇO COM O GIGANTE PERNAMBUCANO.

Cada um de nós já deve ter se perguntado alguma vez na vida o que estaria fazendo em determinada situação ou lugar. Decerto que sim. Quem negar estará sendo arrogante e hipócrita, o que não deixa de ser atitude comum nos dias de hoje. Contudo, essas situações em que às vezes nos pegamos sem nem mesmo saber exatamente por que ou como fomos parar nela podem nos mudar; e isso, amigos, talvez seja aquele ínfimo instante que vale a pena na vida.

Início do que hoje chamam de ensino médio: meninas e meninos novatos, ansiosos, ainda temerosos diante da autoridade do professor, por mais que a alta cúpula de qualquer colégio de bairro apenas tenha como principal preocupação os lucros; por mais que uma diretora que não dê a mínima importância para os esforços intelectuais de seus professores ainda zombe deles na hora de lhes entregar o brinde de natal em mãos: “para você, querido professor, tão dedicado ao teu PH Dezinho…”

Não sou professor de português, mas sei que os diminutivos expressam muito mais do que o tamanho das coisas e, nesse caso, posso afirmar que os insistentes diminutivos utilizados pela minha diretora queriam causar a impressão de que provoco problemas, quando tenho de faltar para me dedicar ao meu pós-doutorado. Talvez um pouco de inveja, pois que a digníssima senhora não se dispôs a essa dedicação e, ainda por cima, dizem as mais maldosas línguas, levava chifre do marido quase todo dia.

Fofocas à parte – se eu disser que detesto fofocas, estarei mentindo, mas vamos lá, o objetivo deste relato não é esse – sou professor de matemática. Sou casado, tenho duas meninas que, inclusive, devido à minha profissão, têm bolsa integral em tão distinto colégio onde trabalho. Situação meio delicada, que nos obriga a certas tolerâncias com coisas na maioria das vezes intoleráveis. Não há de ser pecado tão condenável, para aqueles que acreditam poderem ser os pecados relativizados. Além do meu conhecimento, muitas vezes sou obrigado a vender outras coisas, embora contra minha vontade: paciência, olhos fechados – bem fechados em certas ocasiões – e a postura de alguém que precisa apenas manter o emprego e o sorriso, para sustentar a família.

Minhas meninas têm uma amiga que, por sinal, também é minha aluna. Garota relativamente normal, olhos grandes, pequena e por vezes bastante nervosa, principalmente quando o assunto são as notas. Sou professor há muitos anos e, mesmo sem querer, confesso que acabei compartimentando tipos de alunos em caixinhas compreensíveis: o astuto, o esforçadinho, o fraquinho, o vagal, enfim, classificações que Vigotski decerto condenaria como postura de um educador. Claro que hoje em dia não se pode mais ficar falando desse modo, mas tenho de admitir que mudar modos de pensar é bem mais difícil do que se imagina. Pois bem, essa garota para mim era do tipo esforçadinha, longe de ser astuta. Foi o que julguei precipitadamente, como também julgava minhas próprias filhas o tipo de alunas que não levavam a sério o fato de serem filhas de um professor de matemática.

Digo precipitadamente porque, depois de um fato, a que me referi no início desta história, mudei meu julgamento.

Ela tinha um aproveitamento relativamente aproveitável para uma garota de sua idade. Mas era extremamente rigorosa consigo mesma, a ponto de parecer exageradamente dramática sua reação, quando a nota não era máxima. Ora, nota máxima só para Deus, logo abaixo da máxima, apenas eu; depois vinham os garotos. Eu chegava a achar petulância daquela adolescente nervosa vir me questionar o porquê de nota tão baixa, já que tinha estudado tanto. Comecei a propositalmente não lhe dar muita atenção, para não incentivá-la nesse questionamento que colocava em dúvida minha capacidade de avaliar. Que desplante.

Tinha alguma desconfiança de que a cobrança vinha dos pais, quase claro esse fato. Conheci os pais dela em um dos eventos e reuniões que frequentemente aconteciam no colégio: um pernambucano gigante, com postura autoritária que impunha todo homem com sua enormidade, e com a voz estrondosa, como a de um leão rugindo sem o menor esforço; a pele queimada de sol, o nariz grande na cara grande, assim como a cabeleira, já naquele tempo grisalha e farta. A mãe, comissária de bordo, suave e sorridente como sempre sonhei serem todas as comissárias de bordo do mundo. Fomos apresentados e vez após vez, como nossas filhas eram colegas, cumprimentos de longe, comentários genéricos sobre as crianças.

Pois tudo começou quando Catarina – esse era seu nome, confesso que demorei meses para guardar e, quando o guardei, foi para nunca mais esquecer – tirou nota seis em uma prova bimestral. Até eu fiquei surpreso quando vi o resultado de sua prova depois de corrigi-la. Xi, é a menina nervosinha… Ela nunca tinha sido brilhante em matemática, mas mantinha seus sete e meio ou oito, embora também sempre choramingasse por causa desse desempenho que, para mim, estava mais do que satisfatório. Até revisei a correção, mas realmente não merecia mais. Dei de ombros, que ela estudasse e se recuperasse, e ainda estava na média rasa.

A hora de entregar as provas reveladoras das notas sempre era um pesadelo. Os meninos começavam com aquele processo de mendicância desesperada; mais meio ponto aqui, setenta e cinco ali, o senhor não corrigiu direito este, professor, o senhor viu que não terminei o problema, mas o raciocínio está correto, mereço zero vinte e cinco só pelo raciocínio, o senhora não acha?  Um inferno.

Catarina rezava em segredo, percebia em sua expressão apavorada a chegada do fim do mundo. A pele, já branca, estava agora transparente, com os olhos arregalados e pregados em seus seis. A respiração, se não me engano, estava ofegante, imprecisa. Só me falta agora essa garota começar a chorar, por deus! Mas não. Nem mesmo chegou perto de mim, para questionar a nota, como costumava fazer. Apenas guardou a prova em sua pasta cor de rosa e ficou com os olhos parados no infinito daquela sala de aula agitada, como prisioneira recebendo a sentença de morte – guilhotina.

Faltou nas duas aulas seguintes e os colegas disseram que tinha ficado doente. Minha diretora informou-me que os pais haviam avisado da internação, por causa de uma gastrite nervosa, mas que logo voltaria às aulas. Tive o forte pressentimento de que a gastrite nervosa estava estritamente relacionada à nota seis da prova bimestral. Uma semana depois, Catarina, um pouco constrangida, até mesmo assustada, veio falar comigo: “professor, meu pai pediu para que lhe entregasse este bilhete”.

Era um convite, entre formal e limitadamente alegre, para um almoço, com data e hora, tudo já decidido. Que eu levasse minha esposa e as meninas; ele fazia questão. Ainda pedia de forma bastante educada que, caso o dia marcado não fosse possível, que lhe telefonasse avisando.

Entre surpreso e perdido, procurei ganhar tempo, enquanto aquela garota esperava a resposta, olhando para mim sem nenhuma expressão no rosto, mas demonstrando de alguma maneira que ela sabia de tudo: eu estava prestes a cair em uma armadilha. Mas não se tratava de um ardil mesquinho de criança, tratava-se de um direito legítimo, era o que sua expressão me dizia. Nesse momento, percebi que aquela garota aprendia as nuances da astúcia.

“Você está melhor, Catarina? Sarou?”

“Estou sim, professor, obrigada por perguntar”.

Olhei novamente para o bilhete. Estava escrito à mão, com letra legível, mas insegura; possível perceber o extremo cuidado e capricho ao escrevê-lo. Bem, que mal poderia haver em aceitar um convite para almoçar? As meninas eram amigas e provavelmente o gigante apenas desejaria saber como melhorar a nota da filha, coisas com que me acostumei ao longo de anos de reuniões de pais e mestres. Voltei-me para Catarina novamente com certo ar de aborrecimento, irritado por ela certamente ter ido chorar as pitangas com o papai por causa de uma nota baixa. Fosse no meu tempo, meu pai me daria uma surra, no mínimo duas semanas sem TV e pronto. Esses adolescentes de hoje são muito mal acostumados, isso sim.  Mas a ideia de telefonar para aquele homem e inventar uma desculpa para recusar o convite me parecia extremamente fora de cogitação, desanimava-me a ideia, cansaço sem fim.

“Diga a seu pai que aceito o convite. Agradeço. Estaremos lá.”

Ela não sorriu e eu pensei que, se ela não fosse tão normal, seria muito esquisita.

O gigante nos recebeu no portão, mais sorridente do que realmente parecia querer sorrir. O aperto de mão dele já soava como ameaça, assim como o sorriso, que expressava uma amabilidade comedida, meio falsa. A família de Catarina, á primeira vista, parecia muito normal. O irmão mais velho, calado e bastante introvertido, mal se dirigiu a nós. Sua mãe suave, sorridente, já estava arrumada após ter feito aquela abundância de comida, pois a mesa já posta estava entulhada de diversas entradas e pratos principais sem nenhum tipo de combinação normal: quibebe de abóbora, mungunzá salgado, feijão de coco, sarapatel, escondidinho de carne de sol, caldo de peixe, chambaril; travessas imensas que indicavam uma verdadeira festa de natal pernambucana, orgulhosa de se apresentar. Acho que não consegui disfarçar meu espanto diante daquele exagero de comida e fartura e o gigante pai de Catarina nem tentou disfarçar o orgulho proposital de quem mostra a que veio.

Depois de um breve petisco, em que serviram caranguejos e pasteizinhos de camarão em meio a conversas genéricas sobre o preço das coisas que subia cada vez mais, logo nos sentamos à mesa, diante daquele banquete multicolorido e, de certa forma, ofensivo para pessoas normais. A mesa também era grande, mas ficava menor com tanta comida lhe ocupando a superfície coberta com uma toalha florida em tons vermelhos, verdes e brancos. Assim que me recuperei do choque da abundância exagerada, consegui me concentrar nos gestos, falas e inflexões do grande homem, que se sentou à cabeceira, como todo pai de família costuma fazer. Todos pareciam à vontade: minhas filhas, minha esposa, a mãe de Catarina; seu irmão, tanto fazia estar ali ou não. Os três estranhos que sabiam de tudo – eu, Catarina e seu pai – éramos os únicos a esperar algo mais do que um simples almoço entre famílias.

Pois bem, professor – começou ele atacando firmemente a porção enorme de quibebe com o garfo fazendo as vezes de uma pá; parou o garfo na metade do caminho à boca, para falar – me conte então como deve ser uma missão e tanto essa de ensinar as crianças.

Sua entonação era séria, como se me perguntasse de que forma eu resolveria o problema dos conflitos no Oriente Médio. O rugido de leão que reclama, entrecortado pelo sotaque de erres e vogais abertas que, aqui, se pronunciavam fechadas, acentuava aquela digna autoridade de homem grande, dono de muitas terras, o famigerado senhor da abundância, embora sem ostentação desnecessária. Em minha fantasia engessada pelas histórias de infância e discursos do sul, eu imaginava que ele sutilmente colocava a mão direita dentro do paletó, para logo em seguida me apontar uma arma. Era o começo de uma conversa.

Não é fácil, senhor, mas tem seus bons momentos – foi o que consegui responder.

Olhei para a mãe de Catarina, que concordava solícita com a cabeça, enquanto engolia uma porção do caldinho de peixe.

Ele botou para baixo de uma só vez a grande porção de quibebe fazendo um hum meio esquisito, difícil de precisar se concordava ou discordava. Depois disse:

Pois olhe, professor – a palavra professor era pronunciada com uma pausa significativa, como se fosse preciso pronunciá-la com extrema cautela – lhe digo uma coisa: sou homem de braços, de pernas, do fazer, entende? Digo, não entendo muito dos estudos da matemática nem de ciência nenhuma, não fui muito de estudar, não é verdade? Aprendi a contar, porque a gente sempre precisa saber contar o que entra e o que sai.

Concordei com um movimento de olhos, queria dizer que entendia perfeitamente, que já estava inclusive cansado de ouvir tantas histórias iguais àquela: o homem simples que veio para a cidade grande e, com o suor do trabalho duro queria dar vida melhor aos filhos. Mas o mungunzá salgado estava com o gosto muito bom, apesar da pitada de ameaça que começava a se construir. Então ele continuou:

Todavia… professor… acho que posso arriscar dizer que um desses bons momentos, que o professor acabou de dizer, pode vir quando os alunos mostram que aprenderam o que um… professor… ensinou, não é verdade?

Pronto. Começariam agora as cobranças típicas de um pai que não se conforma com uma nota baixa em prova bimestral; em prova nenhuma, aliás. Já tinha mentalmente preparado respostas para esse tipo de situação, inclusive experimentava respostas das mais variadas para pais que não viam nada além de notas altas ou baixas. Não sei então exatamente por que minhas mãos começavam a suar, por que aquele calorão subia pelo pescoço. Claro que a intimidação em forma de tanta comida e bebida em um almoço descabido poderia estar contribuindo, mas tentei manter o controle de um professor experiente que tem de dar satisfações aos pais de uma aluna qualquer.

Sem dúvida nenhuma, tentei começar, principalmente quando vemos o esforço

Ele levantou uma das grandes mãos, em sinal de protesto manso e cheguei a me assustar:

Não, não, não me interrompa… professor… já lhe deixo falar. Enquanto me escuta, experimente um pouco do feijão de coco, está uma coisa de Deus, lhe garanto que nunca comerá feijão de coco igual. Coma, coma!

Houve uma brisa bem rápida passando por ali, como um constrangimento. Ele nem sequer alterou o tom de voz, o que não seria necessário, para todos obedecerem às suas ordens. Mas foi bem rápido, os outros ocupantes da mesa voltaram suavemente aos gestos normais de quem come, acredito inclusive que nenhum deles sabia exatamente do que se tratava aquela conversa, a não ser a menina da nota seis.

Catarina estava tranquila, isso me intrigava. A mãe, apesar do sorriso suave e bondoso, tinha uma zombaria muito, muito leve nos olhos. Eu, mesmo na absoluta ausência de qualquer objeto que se parecesse com uma peixeira ou uma carabina ao alcance da mão daquele homem gigante, sentia-me cada vez mais ameaçado e, por que não dizer, ridículo ao mesmo tempo, por pensar assim. Na evolução daquela conversa bizarra, parecia que eu estava sendo pendurado de cabeça para baixo numa árvore seca, para ter minhas bolas cortadas devagar, como costumavam torturar os jagunços seus inimigos mortais.

O rugido do leão pigarreou, quase engasga com uma espinha de peixe. Depois continuou, tranquilamente:

Pois bem… professor… tenho certeza de que sua gratificação é esta: seus alunos aprenderem. É quando o trabalho da gente dá certo, dá lucro, dá prazer. Não é verdade? Mas claro que nem sempre é possível, entendo perfeitamente, mas tão perfeitamente que até deus duvida. Todavia, meu caro… professor… creio eu que nem sempre fazemos tudo que podemos. Por cansaço, por distração, por conveniência, por pouco caso.

Na última expressão, percebi o cenho do homem franzir e uma leve ênfase, como se todos os problemas do mundo se resumissem àquilo: pouco caso. Abri a boca para retrucar, ao que ele novamente levantou a mão, peixeira imaginária da minha mente começando a se desorganizar, à procura de algum ato falho que eu poderia ter cometido contra aquela garota tranquila comendo sarapatel, carabina engatilhada na minha cabeça; já comecei a sentir que algo eu devia àquela gente.

Não tenho dúvida nenhuma… professor, que o senhor é uma pessoa de bom caráter, trabalhador honesto e dedicado. Nunca pus dúvida nisso não. Como já disse, sou ignorante de toda essa teoria aí de que o senhor é doutor, para mim número é número, serve para contar, quantificar e desquantificar… letra é letra, coisa de que também não sou grande sabedor. Mas de uma coisa eu entendo, professor: das necessidades de meus filhos, ah, disso eu ainda entendo, sim, senhor.

Por um instante interrompeu a linha séria do raciocínio, desanuviou a expressão grave:

Experimente um pouco do escondidinho de carne, sua senhora e as meninas não gostam de escondidinho? Ah, mas têm de experimentar, minha gente, comam, comam, nada de cerimônia!

Logo se voltou para mim, tão diretamente como bala de fuzil:

Pois então, como número serve para quantificar… professor… veja que inventaram também de quantificar em forma de números o que esses jovens aprendem, não foi? Foi! E, fazendo uma relação extremamente necessária, inventaram também o número que paga a mensalidade da escola. Pois eu pergunto a esses dois filhos meus, todo santo dia que eles vêm com oito, sete… SEIS: e eu pago só oitenta por cento da mensalidade, por acaso? Pago? Setenta por cento? SESSENTA por cento? E não é? Eu e minha senhora aqui trabalhamos de sol a sol, domingo a domingo, inclusive para pagar estudos de qualidade para esses dois. Não me conformo com isso não… professor. Só sei ver a coisa assim: se a gente tem de pagar pelo produto, que venha o produto inteiro, e não é? Pois se a gente paga inteiro, há de se aproveitar por inteiro. Pronto!

Levou as costas para o encosto da cadeira, com as duas mãos sobre a mesa, acalmou um pouco o ânimo anterior com um suspiro. Levou o copo à boca, molhou a garganta com cerveja. Depois recomeçou, de forma mais tranquila, tão tranquila como poderia ser um rugido de leão:

Mas Catarina, essa minha menina de ouro, sei que é esforçada. Ficou até doente, foi parar no hospital, o professor deve ter sido informado. Gastrite nervosa porque não conseguiu entender bem o último assunto que o professor ensinou.  Vi a mãe perguntar a ela: como não entendeu? Se prestou atenção na aula, se estudou para os exames, se tu tem miolos normais e de bom tamanho, mas ora, o que deu errado então, filha? Bem, professor, tive de intervir nesse assunto, e não vá pensando que lhe convidei, e à sua família, aqui, para se sentar à minha mesa, com o intuito de cobrar notas altas não.

Abri mais os olhos, surpreso, pois era exatamente isso o que eu estava pensando.

Notas altas eu cobro deles, ora. Sou ignorante em muitas coisas, mas não sou burro. O que eu gostaria apenas era de lhe chamar a atenção para um pequeno fato. Bobagem, o professor concordará comigo, nada tão difícil para um doutor em matemática compreender. Entendo que são muitos, mas, cá entre nós e convenhamos: não são esses muitos que demonstram tanto esforço e dedicação como minha menina, não é verdade? Ela só me disse que ás vezes – veja bem, às vezes – o senhor não tem tempo de lhe dar atenção, quando ela o chama para tirar as dúvidas.  Passa reto por ela, na sala de aula. Veja só! Não pense também o professor que vou logo acreditando assim no que uma criança, por mais crescidinha que esteja ficando, diz. Criança ainda está aprendendo a honrar a palavra, ás vezes se confunde, mal entende. Por isso é que estou querendo saber se é verdade essa distração sua, pela boca do senhor, diretamente, pois uma das coisas que abomino demais é injustiça, não sabe?

Dito isso, ele esperou eu pensar, eu me lembrar, eu me julgar e condenar. Sim, porque era verdade. Principalmente depois dos insistentes questionamentos sobre notas, sobre resoluções de problemas cuja explicação, sim, muitas vezes eu não estava com paciência de repetir. Aquele gigante senhor tinha talhado com fio de navalha poderosa o entorno dos meus testículos, lembrança da tortura de um pai com a razão, de Lampião na grande cidade de concreto. Ele sabia que eu não podia negar. Bola ao cesto. O que mais me impressionou foi a certeza que ele tinha da versão da filha, embora habilmente tenha dissimulado aquela oportunidade de uma nova versão. Certeza que eu mesmo não teria em relação às minhas próprias filhas. Aquela certeza fabulosa da inflexibilidade moral que tinha ensinado a ela, tão certinha, tão estudiosa e, pelo menos durante aqueles tempos, jamais mentirosa a respeito de algo agora tão sério de se denunciar. Por fim, combalido, envergonhado, abaixei a cabeça e depois disse:

Sinto muito, senhor, creio que Catarina esteja dizendo a verdade e eu realmente nunca tenha percebido tamanha falta de atenção. Realmente nem sei o que dizer.

Eu estava prensado contra a parede, com a cara grudada em sua frieza, facão na nuca, solicitado a confessar um crime. Intuitivamente, achei por bem ser sincero. Sempre fui sincero, mas se tratava daquela sinceridade trabalhada, que dividia responsabilidades entre mim, os pais e o aluno. Aquela situação, porém, era mesmo diferente. A menina estudava; prestava atenção nas aulas; era inteligente. Alguns simples gestos de paciência talvez tivessem evitado aquele encontro com minha própria arrogância e, quem sabe, com meu pouco caso em relação a alguém que levava tão a sério a nota de matemática.

Logo ele retrucou, pai poderoso e compreensivo, relaxou a corda em meu pescoço com a calma do perdão, uma vez que eu tinha admitido o que ele queria que eu admitisse:

Mas não tem nada o que dizer… professor. Quem tinha o que dizer era eu. Já disse. Pronto. Nem me interessam os motivos, mesmo porque já sei quais são. Não é perseguição, nem maldade. O senhor apenas é um… um professor. E professores também têm seus dias de cão, imagino, sei, compadeço-me. Quem não tem, não é verdade? Basta que agora em diante cada um faça sua parte. Pronto. Eu, de minha parte agora, quero é comer o sorvete de tapioca. Coisa de deus, sem cerimônia!

Despedimo-nos da família, eu ainda envergonhado, mas disposto a prestar mais atenção em Catarina e em suas dúvidas. Ele, o gigante leão, alegre, com sorriso de missão cumprida. Pois não é que o gigante estava certo? Catarina nunca mais tirou nota abaixo de oito, embora ainda aquilo significasse apenas oitenta por cento da mensalidade da escola.

Devo confessar que admirei por vários anos aquele gigante e sua atitude, aquele modo forçadamente civilizado de disfarçar o autoritarismo do pernambucano que é, antes de tudo, um forte. Talvez sentisse falta de um pai assim e, quando minha querida e despeitada diretora veio me homenagear com o brinde oferecido pelo colégio, no dia dos professores, dizendo a mesma frase infame de sempre, “este é especial para o doutorzinho”, peguei-me a imaginar um pai meu, gigante, convidando-a para almoçar num sábado ensolarado, para muito educadamente explicar-lhe algumas coisas sobre o uso dos diminutivos, mesmo confessando sua total ignorância sobre as coisas da ciência.

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O BELO PROFESSOR DE MATEMÁTICA.

Primeiro dia de aula, sempre aquilo: emoção misturada com a expectativa do cheiro novo da pintura. Ainda mais para os que tinham mudado de período; alguns deles, se não fizessem isso, seriam reprovados, diziam que o curso do noturno era mais, digamos – tolerante. A maior parte dos jovens preferia o curso noturno porque tinha de trabalhar, então o sistema ficava menos rigoroso; os alunos que trabalhavam não conseguiam permanecer acordados por longo tempo, afinal, muito cedo já estavam de pé fazendo o dia acontecer. Não era o caso de Lara, nem de Marcela. Lara só queria terminar o ensino médio sem ter de estudar muito, pois ler era uma tortura e perder tempo na vida estudando significava morte lenta, gradual e monótona, como casamento sem solução, mas que tem de continuar por causa da criação dos filhos e da manutenção da sanidade e aceitação por parte dos amigos. Sofrimento puro para ela, Larinha, como podiam chamá-la os mais íntimos. Marcela não tinha outra escolha: para ela, bolsista, só havia vaga nesse período, desde o ano anterior. Estudar significava parte da vida que tem de ser, ela até gostava disso, embora muitas vezes sofresse de ansiedade pelas notas e frustrava-se quando tirava menos de oito.

Os colegas eram quase todos conhecidos, encontravam-se nos eventos do colégio, de que todos os períodos participavam: manhã, tarde e noite.  A maior parte deles também tinha objetivos comuns na vida: um título para poder chamar de seu, ganhar a vida trabalhando na microempresa dos pais, seguir carreira militar ou nos esportes, todos sonhos produzidos e reproduzidos, transformados pela fala constante de tios, avós, professores: tem de estudar para ser alguém na vida. Fazer faculdade já não era coisa só de gente muito inteligente que abria mão da diversão para estudar; todos podiam fazer faculdade, o problema era que tinha de querer muito. Faculdade para Larinha significava gente nova, bonita, a emancipação para viajar a lugares exóticos, admiração e respeito daquele tio ou amigo velho da família que preferiu o sossego do funcionalismo público sem muitos perigos, nem conflitos éticos para enfrentar. Escolheria a carreira de acordo com o menor esforço que teria de fazer para terminar os estudos, achava que se daria bem em qualquer coisa que escolhesse, afinal, era bem nutrida, inteligente e tinha uma família que trabalhava noite e dia para que nunca ficasse desamparada; tinha tudo na vida que uma garota de quinze ou dezesseis anos achava que precisava.

Se formos considerar as leis da física, os opostos se atraem, então isso explicaria a amizade de Larinha por Marcela, seu oposto em tudo. Desde pequenas estudaram juntas e tornaram-se inseparáveis. O pai de Marcela trabalhava como zelador na instituição, razão pela qual sua filha podia estudar ali sem pagar, mas agora somente no período da noite. Donos de colégio também procuravam ter bom coração, contribuir para o bem social do país. Ninguém espalhava essas informações, era politicamente incorreto, mas se um escuta, o colégio todo acaba sabendo. Alguns meninos e meninas achavam injusto, nunca se descobre de onde eles tiram essas conclusões, mas achavam e a tratavam com superioridade quase que instintiva de pessoas que ainda estão em plena formação de sua própria humanidade. Outros pouco se importavam com isso, eles mesmos muitas vezes se esqueciam de que pagavam os estudos, pois mal aproveitavam a mercadoria. Larinha não achava injusto, mas, de certo modo, cultivava alguma quase que imperceptível superioridade de uma garota que tem pais que se matam, de sol a sol, para orgulhosamente poderem pagar os estudos dos filhos, já que o ensino que o governo dava não servia para nada. Marcela percebia, mas não se importava. Achava a amiga engraçada, cheia daquela alegria um pouco autoritária de quem tinha muitas histórias para contar, brotavam vida e casos para contar dela toda, embora quase sempre a aborrecesse nas provas bimestrais, no desespero das colas e trabalhos que tinham de fazer juntas e juntas era modo de dizer, claro que Marcela acabava fazendo tudo sozinha. Menina que intuitivamente sabia da obrigação de sair-se bem nos estudos, que via e vivia coisas que a maior parte de seus colegas nunca tinha conhecido, como uma mãe diferente da deles, mas muito igual a milhares de mães na cidade: para ela, o amor não era o mais importante. Existia, mas pouco lugar tinha naquela vida de tantas coisas em que pensar. Por isso Marcela não era muito dada a demonstrações de afeto, embora não fosse fria nem distante. Apenas fazia o que tinha de fazer, ria quando tinha de rir, chorava quando tinha de chorar. Não procurava nada além do que podia pegar com as mãos e sentir com a boca. Estudava porque tinha aquela tarefa como obrigação, entendia bem isso, principalmente quando sua mãe lamentava não ter tido a mesma sorte, por não ter tentado mais. Aprendeu que aquilo era valioso, mesmo sem ainda ter ideia clara em que consistia tanto valor. Achava que não se tratava de ter um bom emprego apenas. Seus pais não tinham estudado e tinham um bom emprego, a culpa era do país, do governo, das guerras, intuía, o fato de não poderem pagar tantas coisas. Mesmo assim, ainda pensava bastante naquele mundo que parecia não ter muito espaço para caber tanto pensamento.

Poucas vezes deixava o sentimento de inferioridade crescer. Pouca coisa a atingia: como roupas de marca, carros caros que vinham buscar os colegas, nada disso a incomodava agora que estava uma moça séria. Quando criança, talvez. Mas vingava-se estudando, tentando entender e aprender tudo e mais do que todos os colegas, inclusive mais do que Larinha. Então sua superioridade vinha em forma de notas altas, admiráveis, soberbas. Para ela, definitivamente, receber um dez dava mais prazer do que ganhar doces de natal, já que assim se confirmava a exatidão do processo da vida, era como se deus existisse.

Apesar de todas essas diferenças que fazem uma amizade fluir com certo distanciamento, havia algumas coisas em comum, que se intensificavam desde o início do curso do Ensino Médio até aquele ano: a paixão pelo professor de matemática e a ingenuidade de quase moças que descobriam o mundo e suas malícias. Aliás, isso as uniu mais, cada qual com suas razões que nem as sombras explicariam. De certo modo, era possível perceber que Larinha secretamente admirava a inteligência da amiga que, para ela, significava um dom divino, nada a ver com esforço. Eu estudo e nunca consigo tirar notas como as suas, você é uma nerd safada! – protestava ela cada vez que recebia as provas com notas medíocres ou vermelhas. Marcela sorria e ficava quieta, olhava para o teto, fingindo constrangimento quase verdadeiro. Por sua vez, admirava o despojamento de Larinha, o modo como se vestia e a esperteza de mulher que logo seria. Foi ela quem lhe despertou o interesse pelo professor de matemática.

O professor era um rapaz moreno, alto, bonito e sensual, diferente de qualquer arquétipo que se tenha criado de professores de matemática. Corpo atlético, cabelos bem curtinhos e um cavanhaque rigorosamente aparado; quando em aula, ficava sério, não brincava e, nessas horas, Marcela o via como deus que andava dominando todos os segredos da ciência tão complexa. Todavia, nos intervalos, ficava sempre no pátio, junto dos alunos e alunas, transformava-se, descia à terra dos mortais para exibir sua graça e humildade, igualando-se a eles. Provocava todas as meninas com aquela malícia controlada de quem sabe muito bem até onde pode ir, mas que deseja muito ir. Tinha plena consciência do seu encanto e simpatia que dominavam os sonhos das meninas e o ideal dos meninos. Muito popular o professor. Aquela transformação encantava Marcela e a todas as meninas do colégio. Em pouco tempo, já sentia ciúmes, ao observá-lo de longe nas rodinhas de moças alegres e brincalhonas, percebia que ela mesma não sabia brincar daquele jeito que parecia agradá-lo tanto. Então se empenhava ainda mais nos estudos, principalmente nas épocas de prova; prestava atenção nas aulas a ponto de o olho arder por falta de piscar, estudava o assunto em casa e formulava perguntas inteligentes para fazer na aula seguinte. Assim chamaria a atenção dele, mas a frustração de não conseguir se aproximar como Larinha ou as outras meninas muitas vezes lhe tirava o sono, pois que o professor não brincava com ela do mesmo modo que brincava com as outras. Respondia às perguntas, muitas vezes parecia aborrecer-se com as perguntas tão superiormente formuladas, pois a turma acabava se dispersando.

Será que pareço séria demais? – chegou a perguntar para Larinha, ao que a amiga respondeu: sem dúvida nenhuma! Me ensina a não parecer tão séria. Ensino, e você me ensina a tirar notas altas em matemática!

Pacto feito, resultado inesperado, pelo menos para Marcela. Ela não conseguia. Uma vez tentou se entrosar na rodinha de meninas que o cercavam, mas a sensação de ser invisível – para ele e para os demais – arrasou o seu dia. Ele nem sequer olhou para ela, que ficou ali, ora com as mãos no bolso, ora sem saber onde as enfiaria; calada, sem nada de interessante para dizer. Larinha a cutucava, cobrava reações mais espontâneas e alegres, e Marcela começava a se irritar. Saía da roda e passava o resto do intervalo sozinha na sala, tentando resolver o último problema que ele tinha deixado. O fim do mundo se deu, quando Larinha conseguiu tirar nove na avaliação do mês – uma das questões ela colou de Marcela – e vangloriou-se feito diva em tapete vermelho. O professor lhe entregou a prova visivelmente satisfeito e surpreso, elogiou-a por estar melhorando tanto. Quando entregou a prova para Marcela, nada disse, ainda por cima lhe deu oito e meio. Decerto, para ele, era normal que ela tirasse uma boa nota, então obviamente nada tinha a lhe dizer. Como isso era frustrante!

Então Marcela decidiu emburrecer, pelo menos uma vez, para ver se chamava sua atenção. Também não adiantou. Só deus sabe o esforço que fez para não resolver três problemas difíceis de logaritmos que ela sabia mais do que tudo, já que aquele assunto foi tratado em uma aula em que o professor usava uma linda camisa branca, que deixava explícita a musculatura do peito, tórax, bíceps, tríceps; uma calça preta de linho, que dava uma forma magnífica às coxas e quadris. Larinha cochichava: que bunda linda, fala sério! Marcela ruborizava e teve de estudar o dobro em casa, pois não prestou atenção em uma palavra sequer do professor, por isso acabou entendendo mais de logaritmo do que qualquer mestre em logaritmos, para compensar a distração na aula.

Recebeu um seis e meio e isso ainda também era normal, pois ele nada disse. Nem perguntou por que não tinha tirado dez. Acho mesmo que ele me detesta. Devo ser muito feia e sem graça. Enquanto isso, via o sucesso de Larinha nas relações com o professor, o que lhe causava ciúme violento e revolta impotente, de um dia para outro. Ora, as notas dela eram mérito seus! Além disso, nem tão bonita assim ela era.

Começou a usar batom. Não se sentia muito à vontade, mas resolveu que era normal. Quanto às roupas, olhava-se no espelho e sua magreza não tinha como chamar atenção. Larinha, especialista agora que estava, assegurou-lhe que homens gostavam de quadris e seios fartos. Há homens inclusive que afirmam gostar de transar com gordinhas e até com grávidas! Meio bizarro afirmarem isso assim, publicamente, mas ela já tinha ouvido ao vivo e em cores. Meu deus, será que o professor gosta mesmo de transar com grávidas? Desanimada, pensou em desistir. Larinha às vezes dizia coisas tão irritantes e nojentas, que parecia não ser Larinha. Talvez nunca tivesse sido, mas agora a amiga parecia um exagero. A ideia de transar com o professor ainda não tinha lhe passado pela cabeça, ela nem imaginava como isso poderia ser, mas agora, enquanto ele explicava a trigonometria no quadro, um misto de coisas confusas lhe passava rapidamente pela cabeça, menos a trigonometria.

Assim como aconteceu, então desaconteceu. A adolescência tem dessas, como tempestades que vêm do nada e vão para o nada, como se nunca tivessem existido; como inseto peçonhento que se deseja matar, mas simplesmente some enquanto se vai buscar o inseticida. Sempre já era tarde, quando se percebe. Ás vezes, uma única palavra, um único gesto ou uma pequena descoberta do defeito de uma divindade destrói toda uma história, e não há mais nada que possa reescrevê-la, a não ser a lembrança.

Foi na ocasião da festa junina do colégio, nesse último ano. As amigas se arrumaram na casa de Larinha, a mãe dela gostava de pintar bonecas, como a si mesma. Aconteceria a quadrilha da turma do noturno, a mais esperada pelos amigos, pois significava quase uma despedida dos que se formariam naquele ano. Os mais novos cultivavam admiração e respeito por aqueles que se formavam; os menores os adoravam.

Enquanto não eram chamados para a dança, os estudantes passeavam por toda a festa, comendo os doces, brincando em algumas barracas. Larinha sempre popular entrava e saía das rodas, sempre acompanhada de Marcela quieta, reservada, até mesmo triste. Suas notas, até aquele momento de fim de semestre já lhe tinham rendido cobranças dos pais e isso pesava sobre o sorriso metálico que só desejava ser sorriso. Nunca chegara a ficar no vermelho, mas as notas que sempre foram altas durante todo o curso do Ensino Médio estavam medíocres e ela não podia explicar a eles que tudo aquilo era culpa do professor de matemática, o deus do Olimpo. Somente fazia promessas àquelas suas âncoras de vida segura e real, tudo melhoraria, embora ela mesma não acreditasse muito nisso, já que a vida toda ficava sem sentido, na ausência daquilo que ela ainda descobria: a simples atenção, ou a suspeita, que fosse, do símbolo de seu futuro encantado, faria tudo se transformar. O professor descobriria um lado fabuloso naquela garota quase crescendo, ainda tão encoberta, que somente ela conhecia. Largariam tudo de até então e mergulhariam no mundo do conhecimento e liberdade juntos, como John Nesh – sem suas alucinações – e sua fabulosa esposa, tão inteligentíssima e bela quanto ele. Que mundo poderia contra par tão perfeito?

Então sentiu o cutucão de Larinha: ele chegava com a esposa e uma menina pequena. Ficaram observando, de longe, paralisadas pela atenção abstrata em algo que tinham de ver, quadro realista-naturalista no museu da juventude. Eram os mesmos músculos, o mesmo peitoral, bíceps e tríceps, uma roupa menos formal, mas seus gestos pareciam outros. A esposa sorria, à vontade, cumprimentava a todos muito desenvolta. Ele permanecia com as mãos cruzadas na frente – está escondendo o pinto agora por quê? – despejou Larinha, com irritação inexplicável, pinto tantas vezes superimaginado por ela como sendo um monumento; por ora, o monumento se resumia a um professor encurvado como passarinho na gaiola, cansado de cantar por salvação. A gaiola tinha as portas abertas, mas ele não fugia, pois decerto morreria de fome, sem saber caçar sozinho o alimento. O mundo agora se tornava grande demais para um bonito passarinho de cativeiro.

As meninas mais ousadas se aproximaram deles, a esposa não tirava o sorriso dos lábios, olhava para todas elas como se fossem crianças adoráveis, embora com certo distanciamento de quem precisa mostrar algo que realmente não tem, como uma segurança. Ele se encolhia, assustado, chegava a sobressaltar-se de medo. Nada daquele professor que ficava nas rodinhas de meninas na hora do intervalo, rindo alto, brincando com todas elas, como se fosse possível brincar com a adolescência. Parecia um boi castrado pastando no quadrado de um curral em dia de chuva: cabeça baixa, quieto, cheio de moderação e falsidade. Nada daquele deus da matemática que crescia quando explicava o seno e cosseno, os triângulos semelhantes e perfeitos, apontando o quadro, andando de um lado para o outro, que falava e resolvia os problemas fluentemente, com a elegância de um Tales de Mileto, caso ele tivesse sido mesmo elegante, como o próprio nome sugeria. Aquele homem que tinha a profissão mais encantada do mundo – era engenheiro, dava aulas de matemática nas horas vagas, por puro amor e idealismo, outro nome dado à complementação de renda – agora era um sapo machucado: submisso, olhos baixos e braços mortos. As duas meninas inclinavam a cabeça, de um lado para outro, tentando entender aquela transformação enigmática em seus olhares, ou, sem saber questionavam, será que a transformação consistia simplesmente no despir-se das roupas imperiais que, em verdade, não passavam de fantasia vulgar de carnaval?

Marcela e Lara se entreolharam, na comunicação muda de uma descoberta frustrada. Não precisaram falar que estavam vendo a cena patética de um homem patético, mesmo porque não saberiam expressar aquele desencantamento repentino por uma figura que deixava de ser um sonho. Era um pai abatido, um marido assustado, um filho com medo de a mãe descobrir suas travessuras e aplicar-lhe castigos humilhantes. Um engenheiro como qualquer pessoa poderia ser, mas que jamais construiria pontes. Um coronel insignificante, que jamais comandaria exércitos da salvação. Pressentiam que, no máximo, comandaria crianças para o banho diário e um único tijolo no muro seria sua maior contribuição, não por limitação, mas por escolha. Chegaram a sentir até mesmo que nunca tinha sido o professor de matemática.

Definitivamente Apolo morria diante dos olhos de duas moças que, mais uma vez, descobriam o mundo sem os deuses do Olimpo.

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AS AVENTURAS DE NICK-RAPADURA.

(Inspirado no depoimento do ex-amigo Milton Cruz)

Aconselhei: para de comer porcaria na rua; faz mal pro teu fígado e te deixa mais burro. Na rua, no máximo um lanchinho. Embora eu não saiba se isso ajuda no fato de não te deixar mais estúpido.

Dito isso, Nivaldo ficou olhando para mim, naquele dia no boteco onde nos encontramos pela última vez, com aquela cara que pretendia ser séria, e mais parecia assassino descontrolado de algum grupo de justiceiros. Não entendia bem metáforas, figuras no geral só as que ele guardava no celular, para olhar depois – suas mulheres nuas em posições eróticas, mostrando-lhe descaradamente as chavasquetas. Ele nunca me mostrou, eu é que vi acidentalmente, quando, na época, ele ainda não sabia mexer direito no bagulho e plá, abriu-se a imagem pornográfica sem querer. Fingi que nada tinha acontecido, como deve fazer todo bom amigo.

Bem, antes de mais nada, devo informar ao senhor que meu nome é Milton Cruz e, embora eu tenha algumas histórias para contar sobre minha própria pessoa, aqui vou contar algumas coisas sobre o Nivaldo – apelidado de Nick-Rapadura pelo motivo de ser do interior de Minas (daí vem a rapadura) e o lado meio americanoso por megalomania dele próprio, fora isso, não imagino os porquês.  Meus pais são nordestinos e eu nasci aqui, nesta cidade caótica e violenta, onde às vezes é mais fácil fazer faculdade do que arrumar um bom emprego, por isso agora virei profissional liberal, depois de ter feito um curso que chamam de superior, com duração de dois anos. E para contrariar qualquer preconceito, digo logo que sou casado e temos apenas uma linda menina, meu mimo, minha vida guardadinha.

Nivaldo tinha três meninos (ou quatro, me falha a memória agora) e posso adiantar que daí começou o fim de nossa amizade. Sou meio brincalhão demais, a patroa sempre bronqueia comigo por isso, me manda maneirar, mas, ora, macho que é macho não acaba com uma amizade de anos por causa de uma gracinha descabida de um amigo meio de porre. Bem, assim pensava eu, mas acontece que Nivaldo e a esposa dele ficaram ofendidos, creio, porque crer é a única coisa que me resta fazer, já que o Rapa nunca mais veio aqui na minha casa para aquela prosa regada a cerveja que a gente fazia frequentemente.

Pois então, foi na época em que o terceiro temporão tinha nascido que acho que a bronca começou. Lembro que só disse a ele que ele teria de fazer mais bicos, caso quisesse continuar a pertencer à mesma classe social em que ele e a esposa tinham se estabelecido, só com o menino maior; a patroa dele trabalhava em empresa privada, ele era funcionário público, tudo estava muito sossegado. Acho que, inclusive, estava sossegado demais, principalmente para o Nick-Rapadura, que nunca foi homem de sossegos maiores, quando se tratava de mulheres. Vivia encrencado com as donas por aí, a patroa dele vivia falando que ia embora, mas no final das contas acabavam se entendendo.

(Esta história parece muito chata e comum, repetitiva até, mas garanto que o final é trágico, se é que o senhor gosta do trágico).

Enfim, percebia que ele não gostava muito das brincadeiras, o cabra sempre foi meio vaidoso, que eu o tenha compreendido nesses anos todos, e nunca quis fazer papel daquela gente sem instrução e pobre de espírito que não fazia outra coisa a não ser filho e fila nas grandes liquidações. Aliás, sempre dizia em alto e bom tom, que aqui devia ser que nem na China, ou qualquer outro país desses comunistas, onde proibiam os casais de terem mais de um filho por família. Daí não teve como não tirar uma com a cara dele, porra, perguntei se ele se mudaria lá pro Oriente. Não gostou de novo, quando ele não gostava, fingia que nada tinha a dizer.

Agora posso bem dizer claramente – já que as relações entre as famílias estão definitivamente cortadas – que Nivaldo era mesmo um arrogante hipócrita, metido a besta. Fingia que era simples, mas, de verdade, era um muquirana bom de bico e a senhora dele também, ambos gastando muito dinheiro com tatuagens e, na hora de contribuir para as nossas festinhas e churrascos, só vinham com a boca e a prole numerosa – os chineses que o digam – para traçar tudo que viam pela frente. Está certo, vá lá, quando a gente convida muitas vezes fica feio ficar pedindo contribuição, mas toda hora penso que as pessoas precisam de semancol.

Por falar na senhora dele, Jesus Cristo, minha patroa não é nenhuma miss, mas é mulher decente e discreta, como eu acho que todas as mulheres deveriam ser. Está certo, vá lá, vim de uma terra onde só homem tem vez, mas para tentar ser justo, acho que toda mulher de bom senso sabe valorizar suas partes mais bonitas. Para vocês verem que não sou tão porco chauvinista, digo o seguinte: nada contra as moças vestirem coisinhas curtas, transparentes, cada uma mostre o que achar melhor; olhe com respeito quem gosta muito, ignore quem tem juízo. Pois bem, acontece que a esposa do Nivaldo não é mocinha, nunca divulgou sua idade, dizem que as mulheres desta terra não costumam fazer isso, mas aparentava uns cinquenta anos – embora a idade em si nada tenha a ver às vezes com a aparência. O que eu quero dizer é que ela chamava atenção mais pela feiura do que pela formosura que pensava ter. Na época em que éramos amigos, eu tinha dó dele, não que ficasse reparando na mulher do cara, mas era difícil ela passar despercebida, sendo que o que acho que ela mais desejava mesmo era ser percebida, como uma árvore de natal, ou alguém que usasse melancia na orelha. Ainda que tivesse olhos grandes e verdes, o resto não compensava, mesmo mostrando o que muita gente de bom gosto preferia não ver. Enfim, era amiga, e com amiga não se mexe, amiga não se julga nem se condena, apenas se lamenta.

Além de tudo isso, desconfio que o Nivaldo andava relaxando com o rigor da honestidade. Explico: a gente fica meio encafifado quando um casal é formado por um sujeito que é funcionário público e uma dona que só reclama das metas que tem de alcançar na empresa privada e consegue fazer viagens com a família toda de fim de semana, comprar casa própria, carro novo… Deus me defenda e perdoe se eu estiver levantando falso juízo, mas é de desconfiar. Ou o cara deixou de ser honesto, ou é tudo papo furado.

Mas para chegar aos finalmentes, devo então contar o que se sucedeu: após um tempo de calmaria, a família estava começando a frequentar aquela igreja enorme do centro da cidade, tudo em paz, o Nivaldo parecia sossegado, sabe, que nem boi castrado, que fica calmo e quieto dentro do curral? Pois é. Mas como dizem por aí, homem que tem mania de comer fora, só virando pastor, e olhe, eu mesmo, para botar minha mão no fogo, só por Deus. Então acabamos descobrindo – eu tive a infelicidade de ser o primeiro, pois vi com meus próprios olhos e depois contei para minha senhora, que, por sua vez, teve de contar para outra amiga nossa – acabamos todos descobrindo que Nick-Rapadura estava em ação novamente, enrabichado por uma dona que morava no ABC. Virgem Maria, rapaz… o cabra já tinha se livrado de muitas, mas aquela tinha pai advogado e com muito dinheiro, embora fosse mulherzinha estúpida como quase todas que ele traçou. Estúpida por um lado, vingativa e raivosa do outro. O que aconteceu? Ela foi chorar para o pai, inventou muitas coisas, outras nem tão inventadas assim, e acabou que o Nivaldo foi preso, acusado de alguma coisa que armaram para ele. O cunhado, que era policial militar de alta patente – grande cunhado, já esteve aqui na minha casa em alguns churrascos de fim de semana – pagou a fiança.

Só que a história não acaba aqui não, infelizmente.

Para se livrar da filha do advogado, assim como acalmar as desconfianças da esposa e lhe mostrar que não tinha o rabo preso, o Nivaldo começou a postar fotos da família naquela tralha de facebook, como se sempre tivesse achado normal expor a família igual fazem os artistas na revista Caras. Tipo o Luciano Hook e a Angélica, com seus cinco filhos, sabe, só que o Nivaldo mostrava um filho de cada vez nas fotos, para não parecerem muitos, a única diferença que ele desejaria enfatizar entre ele e o Luciano Hook. Escolhia bem alguns dos menos piores ângulos de sua senhora, cortava o corpo, com aqueles truques da nova tecnologia, deixando praticamente só os olhos à mostra, única coisa que não chegava a assustar criancinhas mais sensíveis, para ficar menos feio, pois que a mulher era o cão chupando manga de corpo inteiro, cá entre nós e com todo o respeito ao falecido. Enfim, eram fotos que diziam: “vejam como sou perfeitamente casado com uma grande senhora de descendência europeia – esta é minha Angélica!”

O que essa mídia sensacionalista não cria de ilusão a um sujeito desesperado por se convencer de que é o Luciano Hook, não, gente, vejam bem. Pior ainda: a um sujeito que precisa acreditar em que seja casado com uma Angélica!

Só não digo que o Nick-Rapadura foi muito burro, porque seria total falta de respeito com a memória dele, por mais que um cara seja idiota, não se deve chamá-lo de burro assim publicamente. Pois o que ele esqueceu, no desespero de se livrar da filha rica do advogado, foi que aquela foto poderia ser vista por praticamente todas as mulheres que ele teve fora do casamento. Choveram protestos, cinco delas se sentiram no direito de tirar satisfações, um show de horror, rapaziada! O pobre do homem não sabia mais o que fazer.

Daí então sua esposa resolveu o caso: cansada de perdoar, ficava até inchada, cada vez que perdoava, resolveu pôr fim à situação. Como aquelas senhoras que apanham do marido: em minha humilde e simples opinião de homem, veja bem, de homem macho, mulher que perdoa não merece perdão. Mais: não vejo diferença nenhuma em uma mulher que apanha do marido perdoar e outra que é traída, o que se pode considerar uma surra na alma, tão dolorida, humilhante e abominável quanto. Uma vez, vá lá, ninguém é de ferro, até eu, que sempre fui fiel à minha esposa, também tive meus momentos de fraquezas e de quases. Mas surras repetidas na alma, a mulher tem que ter sangue de uma barata bem nojenta correndo nas veias ou, no mínimo, tem de ser idiota também. Quem sabe ache – o que não seria impossível no caso da esposa do Nivaldo – que homem nunca mais, se largar o osso, por mais que o osso esteja podre.

Pois não foi que a patroa do Nivaldo então surpreendeu a todos: matou o cabra. Em momento de cegueira e cansaço total, empurrou o homem escada abaixo, o pobre coitado chegava da rua, de chinelo de dedo, bermudão e camiseta velha e foi surpreendido pela fúria da mulher, que nunca deu sinal de tamanha insanidade. Sempre foi calma, serena, carinhosa, como uma avó. Ele morreu na hora, ainda em posição humilhante para homem tão vaidoso: de bruços, com o traseiro em forma duma montanhazinha, apontando para o céu. Foi um forró-bodó no bairro e saiu até no jornal local e nacional com a manchete: “A tragédia de Nivaldo – morto passional”. Ficou até bonita a homenagem do jornal. Em seu enterro, nenhuma das mulheres apareceu.

Sabe-se lá, meu amigo, cada um carrega aquilo que lhe convém. Ficamos todos chocados. A senhora do Nick- Rapadura pegou dez anos, com vários atenuantes, e dizem que na cadeia acabou se casando com uma detenta mais nova, coisa inimaginável alguns anos atrás. Caso Nick-Rapa tivesse sobrevivido para presenciar isso, certamente teria sido um golpe fatal em seu ego de macho gostoso.

Tragédia só, esse mundo de meu deus, e eu aqui pensando na minha geladinha que me aguarda em casa.

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OS VIZINHOS

 Rapaz ainda novo. Herdou a casa alta dos avós que morreram quando ele completou trinta e dois anos. Os pais, não chegou a conhecer, salvo comentários de alguns parentes: a mãe morreu no parto e o pai tinha ido embora para o interior de Minas,  já com outra família grande. Os avós que o criaram esclareceram certa vez esse destino do pai, para encerrar qualquer tipo de conversa inútil. Nunca lhe fez falta ou curiosidade mesmo. História comum, acontece muitas vezes na vida e assim ele logo aprendeu que nem todo mundo precisava necessariamente ter pai, mãe, irmãos ou coisa que o valha.

Tinha certo receio das mulheres; não que as odiasse, mas ficava desconfortável com a superioridade de algumas, principalmente das ruivas. Vez ou outra saía para namorar Roseli, caixa do banco, que não era ruiva nem muito inteligente, por isso se sentia tranquilo, já que não sentia ameaçada sua paz interior. Ela não falava nem pensava muito sobre coisas complicadas da vida, seu pensamento era simplório, preto no branco. Descendente de italianos, gostava de namorar e apenas desejava ter muitos filhos, fazer uma grande família, passear e dançar. Vez ou outra mencionava a palavra família para ele, mas não o pressionava, deixava tudo nas mãos de Deus.

Ele consertava eletrodomésticos, desde que tinha terminado o curso que o avô, relojoeiro, havia financiado para ele. Herdou também do avô a oficina apertada com mais dois funcionários; tinha um sócio que mal aparecia, a não ser na hora de contar o dinheiro. À noite, depois do trabalho, trancava-se na casa grande e bem cuidada, cozinhava macarrão e comia. Acarinhava o rato da índia que tinha ganhado numa gincana da igreja, que acontecia uma vez ao ano, única ocasião em que frequentava a igreja. Assistia a todas as novelas e depois dormia sem tomar banho. Era assim o dia de Afonso. Inclusive, assim tinha sido sua vida, desde que os avós se foram, juntos, de mãos dadas, para o paraíso. Além disso, nunca mais foi à igreja.

Então chegaram os novos vizinhos.

O casebre do lado esquerdo estava vazio fazia meses. Era uma edícula que se estendia na largura dos fundos de um terreno comprido. Na frente, de um lado, sobrava um longo caminho cimentado que levava ao portão, e o mato, que crescia do outro. No meio do mato tentava sobreviver um único pé de pitangas, planta forte, que quase morria e quase ressuscitava a cada novo inquilino. Parecia abençoado por uma maldição, já que inquilinos geralmente ficavam pouco tempo, o último não chegou a um ano. Dando para a rua, um portão alto de grades, com lanças nas pontas. Da janela do quarto, Afonso conseguia adivinhar que a casa era dividida em quatro cômodos, todos com janelas para o grande quintal. Quando os novos vizinhos estavam em casa, deixavam sempre a porta da cozinha aberta, de modo que era possível enxergar uma geladeira bege. A casa de Afonso ficava mais para frente, e a janela abria-se praticamente no quintal deles. Qualquer espirro que dessem, parecia ter sido dentro de seu quarto.

Assistia à novela das oito quando chegaram. Primeiro foi ela e a menina. Impossível não perceber, a menina gritava muito e a mãe mais ainda, bronqueando para que ela falasse mais baixo. Depois ficou sabendo que a garota era meio surda e se chamava Melissa. Afonso apagou a luz do quarto, para não ser visto através da veneziana e ficou observando. A mulher lavava o chão, esfregando-o com rodo enrolado num pano. Melissa corria pelo quintal, gritando coisas inteligíveis. Devia ter uns cinco ou seis anos. O mais curioso era que tinha as feições complemente diferentes da mãe, que era justamente ruiva e branca, cheia de sardas. Melissa tinha os cabelos lisos, escorridos mesmo, os olhos puxados e a pele escura. Ficou se perguntando que diabo de raça era aquela. Viu também cães. Uma dúzia deles.

Bem mais tarde da noite, chegou o marido da ruiva. Afonso deduziu que o homem não podia ser pai de Melissa, pois era branco também e tinha os cabelos crespos. Entraram todos dentro da casa, menos os cães, e fecharam a porta. Ainda podia ouvir o arrastar de móveis e objetos caindo no chão. Quando Melissa dormiu, já eram mais de duas da manhã. Foi então que parou de gritar.

Em menos de duas semanas com vizinhos novos, Afonso já sentia uma motivação para voltar para casa. Até então, costumava ficar horas e horas após o expediente, terminando algum serviço. Os funcionários iam embora cedo. Todos eles tinham mulher, filhos, mães, alguém esperando a volta deles. Afonso não. Tatoo não liga quando chego tarde. O rato da índia nunca reclamava de nada. Também não fazia o jantar. Mas nos últimos dias, Afonso sentia ansiedade quando se aproximava a hora do fim de expediente. Na última noite, o casal teve uma briga daquelas e ele desejava saber se tinham feito as pazes, o que sempre acontecia no maior silêncio do mundo. Para Afonso, o silêncio significava terreno fértil para imaginar o que quisesse, inclusive loucas sacanagens. Mente vazia, laboratório de sacanagens, o que nem sempre devia ser coisa do diabo.

O nome da ruiva era Sabrina, e o homem chamava-se Germano. Deu para entender também que Sabrina trabalhava como enfermeira, Melissa era filha de outra união de Sabrina, e Germano cuidava de cães quando os donos tinham que viajar sem ter quem cuidasse deles em sua ausência. Estava explicado aquele amontoado de bichos no quintal. Germano parecia ser do tipo mulherengo, logo Afonso deduziu. Sabrina, metida a mulher dura, não passava de uma caipira crente no fato de que o mundo girava ao seu redor. Ouvia isso claramente nos choros melodramáticos em que sempre acabavam as discussões.

Afonso deixou de acompanhar a trama da novela das oito para ficar a par do que acontecia com os novos vizinhos. Muito mais emocionante, principalmente quando xingavam. Se bem que podiam brigar mais cedo. Geralmente as melhores brigas aconteciam quando pegava no sono. Numa noite ele ouviu Sabrina dizer: o que significa esse cheque que você passou na semana passada? Ao que Germano respondeu calmamente: comprei pizza quando você estava na praia com a sua irmã. Pizza! Quantas pizzas? Por esse valor foram no mínimo umas cinquenta, você por acaso está pensando que eu sou idiota? Sabrina, Sabrina, murmurava Germano, entre conformado e aflito, como você é toda aceitação, mesmo querendo brigar. Germano deu uma festa na sua ausência. Ele e o irmão, seu sócio no negócio dos cães. E olhe, Sabrina , foi uma festa e tanto! esse cheque deve ter pago o monte de latas de cerveja que vi seu marido colocando no lixo na manhã seguinte… Germano murmurou alguma coisa que Afonso não conseguiu ouvir. Depois Sabrina quebrou um prato e Melissa começou a gritar. Logo se ouvia: safado! Um dia eu ainda te mato, Germano! Como pode fazer isso comigo? Quando você veio me procurar não tinha onde cair morto, seu sem vergonha vagabundo! Fiz você sentar na minha mesa e te dei um prato de comida, porque você tinha fome! Fome!

O amor é lindo, pensou Afonso. Um romance que começa com um prato de comida. Não se fazem mais inícios de casos de amor como antigamente. Melissa berrava histérica. Germano, imaginava Afonso, provavelmente estava quieto em frente à televisão, fingindo que não ligava para os ataques da mulher, nem para os gritinhos estridentes da enteada. Tentava adivinhar se ele era fumante ou não. Nunca ficou sabendo.

Mas Germano, embora não sendo o pai da menina alienígena, demonstrava grande afeto por ela. Nos finais de semana, Afonso ouvia os dois brincando no grande quintal. Germano puxava um triciclo que Melissa montava de modo muito estabanado. Ria contente e dava seus gritinhos.

Quando saía para trabalhar, dava de cara com os dois, sentados numa mureta construída na calçada. Melissa vestida em uniforme da escola, Germano feito estátua, esperavam a perua escolar que a levaria, os dois muito amigos. Sabrina buscava a filha no final da tarde. Quando chegavam, era a hora do fim do silêncio no casebre vazio.

Germano não fazia questão de praticar políticas de boa vizinhança. Sempre usava uma expressão inimiga e ameaçadora, diferente daquela que usava quando brincava com Melissa no quintal, de garoto descontraído. Se é que cumprimentava Afonso, fazia-o balançando quase que imperceptivelmente a cabeça. Melissa sorria, abanava a mão e ás vezes jogava beijinhos. Afonso, não acostumado a grandes demonstrações de afeto, correspondia de modo desajeitado. Que menina mais esquisita. Também, não era para menos. Presenciando tantas brigas daqueles dois, só podia ficar meio biruta mesmo. Sempre as mesmas razões: mulheres, falta de dinheiro, você não me ama mais. Era o que Sabrina vivia dizendo. Ultimamente ouvia-a jurar que a coisa ia ter um fim. Mulheres. Criaturas muito escandalosas para pouco efeito. A novidade mais recente que Afonso descobriu foi que Germano estava de caso com a cunhada, mulher do irmão, seu sócio, justamente o enganado e inocente, que muitas vezes dava-lhe conselhos, no quintal: Germano, isso ainda vai acabar mal… Tua mulher não bate bem dos pinos, você sabe… Veja se toma jeito, cara!

 Naquela tarde, quando se aproximava do portão de casa, viu na calçada o pontinho preto de cabelos escorridos e uniforme de escola. Encostado ao meio fio, um carro com uma mulher dentro, junto com mais três crianças. Estranhou aquela cena. Alguma coisa naquelas pessoas parecia diferente de tudo que tinha visto na vida. Incomodavam e instigavam curiosidade, eram fascinantes.  Sabrina botaria qualquer heroína de novela mexicana no chinelo. Tudo o que dizia soava tragicamente cômico e mesquinho, mas doía. Germano representava o vagabundo imaturo, mulherengo e patético. E aquela menina exótica, cheia de mistérios? Parecia um duende: o rosto expressava uma sombra deformada e pueril e gestos dissimulados. Outro dia tinha até percebido as pequenas orelhas levemente pontiagudas da menina. Nenhuma criança normal tinha orelhas daquele jeito. Ótima mistura de ingredientes para uma comédia de terror bem das americanas. Ou serviria também para enfeitar o jardim. Ficaria perfeita sob a sombra do pequeno pé de pitangas. Afonso, preste atenção no que está acontecendo… Pressentia encrenca das boas.

O senhor é o vizinho? – perguntou a mulher aflita. Ele fez que sim com a cabeça, notou que Melissa o reconhecia sorrindo. Tarde demais, não devia sequer ter olhado para eles. Ah, que bom, imagine o senhor que a mãe dela ligou pedindo para trazê-la, porque não ia conseguir chegar a tempo na escola, então viria direto para casa. Mas tocamos, batemos, gritamos, não foi, Melissa?  e não tem ninguém aí! Estou aqui esperando faz uns vinte minutos, não posso mais! Afonso levantou as mãos, querendo dizer que mal os conhecia e que não poderia ficar com a menina, mas Melissa abraçou uma de suas pernas, como se o conhecesse há anos. A mulher sorriu satisfeita e aliviada. Nossa, como ela gosta do senhor, não é?  Quando o viu chegando lá de longe, ela falou: olha, o tio Vizinho vem chegando. Uma graça, não? Obrigada, até logo!

Afonso mal viu o carro da mulher indo embora, de tão rápido que foi. Que mulher mais desesperada e irresponsável, deixando aquela criatura aos cuidados de um desconhecido… Olhou perdido para Melissa. O que faria com aquilo agora? “Estou com fome, tio Vizinho…” Falava esquisito, com a língua presa entre os dentes, além de não pronunciar direito o “R”. Fome? O que será que duendes costumam comer? Ração de Tatoo, talvez? Além disso, vários outros problemas surgiam no horizonte antes tranquilo e previsível: estava receoso de colocá-la para dentro de casa. Capaz de Sabrina ainda acusá-lo de abusar de crianças. Que enrascada! Seria mais sensato esperar um pouco ali do lado de fora mesmo. Que chateação, estava louco para descansar. Nunca deveria ter dado confiança, sempre ouvira falar que vizinhos não serviam para nada além de cumprimentos à distância. Melissa já puxava Afonso pela mão e o fez sentar-se na mureta da calçada, onde ela todos os dias aguardava a perua escolar com Germano. Depois, viu-a abrir a mochila da escola e tirar coisas e mais coisas dela. Era o universo de todas as bugigangas do mundo. Não, Melissa – disse – vai acabar perdendo seus materiais de escola… Ela sorria esquisito. Abriu um caderno e mostrou um borrão que estava desenhado nele. Afonso teve que afastar um pouco o rosto, pois Melissa quase enfiava o caderno no seu nariz. Ah, que bonito o seu desenho, tentou.

“Não é muito bonito não!” – gritou ela – “É o Germano desmanchado, você sabia, tio Vizinho?”

Como assim, desmanchado?

“Ué, desmanchado, que nem molho de tomate que a gente coloca no macarrão, Tio Vizinho. Quando o tomate fica um tempo na água quente, desmancha, Tio Vizinho, porque tomate não tem osso e tem sementinha bem pequenina assim, ó!” Os dedinhos de gravetos mostravam o tamanho das sementinhas de tomate da menina-duende tagarela. “Tem vez que minha mãe desmancha o tomate com o garfo e faca, depois bate no lifidicador…Tio Vizinho, você gosta de tomate desmanchado, que daí a gente chama de espaguete? Espaguete é o macarrão comprido pintado de tomate!”

Aquele negócio de “Tio Vizinho” soava muito patético e o deixava incomodado. Olhe, meu nome é Afonso, combinado?

“Tá bom, tio Vizinho”.

Por outro lado, até que ela é engraçadinha, pensou ele quase se divertindo. De onde será que tira essas ideias de tomates sem ossos? Com a mãe descontrolada, provavelmente.

E onde está sua mãe, será, hein?

“Está dando um jeito na bagunça, Tio Vizinho”.

Não diga. Você faz muita bagunça, é?

“Eu não. Minha mãe faz. O Germano também. Eu só faço bagunça, bagunça mesmo… no ar! Quando eu falo muito alto, o ar se mexe, faz bolinhas e vira de um lado para o outro que nem água nervosinha…”

Levantou os dois braços magros para o alto, como se soltasse borboletas e as observasse esvoaçando em torno da cabeça. Olhava de um lado, do outro, para o alto; para ela, havia várias borboletas coloridas se despedindo. Depois começou a remexer o fundo da mochila. Cadernos, lápis de cor, canetas, tudo ia ao chão. Pobre criança, pensou com cara de dó. Como cresceria no meio daqueles dois insanos conformados?

Na última noite, tinham brigado de novo. A casa quase caiu, e feio. Ele a chamava de gorda acabada e ela o xingava de narigudo espinhento. Se entendeu bem, o motivo da discussão começou por causa de uma mulher com quem Germano teria flertado, no ponto de ônibus. Pela milésima vez ela ameaçava ir embora. Aquela ameaça de sempre estava já perdendo a graça. Sabrina dizia, aos berros, provavelmente referindo-se ao pai de Melissa: ele, pelo menos me dava presentes, seu vagabundo! Você, em quase cinco anos, nunca me deu nem uma calcinha! Mas gasta dinheiro com essas à toa que encontra por aí, que eu sei! Verme, verme, verme! Germano, que raras vezes gritava, respondeu descontrolado: você é louca! Só pode ser louca! Sabrina, você não bate bem, precisa se tratar!

Mas o pior de tudo foi a descoberta de algo que talvez Sabrina nunca tivesse querido mesmo descobrir tão descoberto. Talvez fosse mais digno para ela manter esperança, essa coisa de que o ser humano é feito, acreditar piamente em que, de alguma forma, mantinha aquele homem em casa porque tinham algo especial, inventado e verdadeiro, quando se faz verdadeiro aquilo que se quer verdadeiro. Sabrina descobrir peças de roupas íntimas debaixo da cama foi então o desmoronamento do morro em dia de chuva; foi finalmente a constatação das tripas de um homem vazio qualquer, primitivo, estúpido, que fingia ser superior com superficialidades estúpidas. Até mesmo uma ruiva tomaria providências escandalosas. Afonso aflito fez uma careta, fechou os olhos e, pesaroso, esperava atitudes dignas de uma mulher digna. Como pode? Como pode aquela pobre criatura querer ter sido tão cega, quando Germano recebia a visita da cunhada, e os dois se trancavam durante várias horas dentro do casebre-edícula. O que a fazia ficar naquela situação tão idiota? Será que ela pensava que não era uma situação idiota? Não podia ser mais possível a heroína de suas venezianas continuar sendo tão enganada, afinal, não a imaginava como tão estúpida e conformada. Pois gritava ela agora, como se não tivesse mais a opção de ser cega: não acredito, Germano, você anda trazendo essas vagabundas para dentro de casa? Não, não posso mais com isso! Enquanto só trepava na rua com as vadias, sem tanto descaramento, ainda vá lá! Mas isso já é demais!

Então Melissa duende berrou, provavelmente tinha achado mais evidências do crime muito indecente: “Olha! Que é isso, mamãe?” Logo em seguida, o grito insano da ruiva despertada: sujo! porco!

Pobre Sabrina. Deve ter sido um choque e, apesar de ela ser ruiva, Afonso sentiu muita pena.

Levou um susto ao perceber que Melissa o encarava, sorrindo daquele jeito que lhe dava arrepios. Os cabelos muito pretos e escorridos estavam presos num rabo de cavalo e, desse jeito, as orelhas pontiagudas acentuavam-se. Vai ser esquisita assim nos infernos! “Tio vizinho, vamos entrar, você faz macarrão pra mim?” Desculpe, Melissa, meu macarrão acabou ontem. “Mamãe tem macarrão em casa”. Ótimo, então quando ela chegar, você pede para ela fazer, certo? “Mas ela está em casa, tio Vizinho”. Não, não está.

“Está sim. Vem ver”.

A menina se levantou, depois de socar todo o material de escola de volta em sua mochila-buraco-negro. Abriu o portão sem maiores dificuldades. Olhou para ele, esperando, agora com certa expressão de tédio. Afonso estranhou, mas se sentia hipnotizado por aquela situação. Igual a quando assistia a um filme de horror: tapava os olhos com as mãos, mas sempre precisava dar uma espiadinha. Se Sabrina então estava em casa, por que não atendeu à campainha? Sua mãe está aí dentro? Será que está doente? Por isso não atendeu a campainha, foi?

“Não! eu já contei pra você, Tio Vizinho. Ela estava cuidando da bagunça! Acho que agora já terminou”.

Isso que dá deixar criança dessa idade ficar vendo televisão até tarde, pensou ele entrando devagar e com medo, certo medo gostoso, pois tal qual o filme de terror, poderia descartar quando quisesse.

Toda a casa estava em silêncio. Os milhares de cães haviam sumido e a porta da cozinha estava entreaberta. Que coisa mais sem pé nem cabeça! Estava quase entrando quando percebeu uma sombra movendo-se na direção deles, vinha da saleta, onde a TV estava ligada, sem som. Quase morre ali mesmo de susto. Surgiu a ruiva Sabrina. Aquela mulher estava lhe causando mais terror do que qualquer outra que pudesse encontrar. Podia pelo menos não ser tão ruiva. Os cabelos cor de fogo brilhavam, desalinhados. Nada expressava no rosto, a não ser cansaço. Não, não era uma gorda acabada. Estava até que bonita, assim mais de perto. Abraçou a filha, só então pareceu dar conta do que se passava ao redor, como quem acaba de acordar.

“Já terminou, mãe? O tio Vizinho pode fazer macarrão pra mim?” Sabrina pousou levemente o dedo indicador nos lábios de Melissa, doce pedido de silêncio. Depois olhou para Afonso e só disse: obrigada, ela não vai mais incomodar o senhor. Não, incômodo nenhum. Esticou de leve o pescoço para ver se conseguia achar qualquer coisa de anormal, mas tudo estava em ordem, tudo muito limpo, mais limpo, talvez, do que o normal. Quase pergunta pelo marido, mas achou inconveniente, já que seria a primeira de uma série de perguntas que queria fazer. Deu mais uma olhada rápida e descobriu uma mala grande de viagem. Vai viajar? Diante da total inexpressividade dos olhos de Sabrina, gaguejou, tentando justificar o modo indiscreto e ansioso que usou ao fazer a pergunta: bem, quero dizer, pergunto, porque é sempre bom os vizinhos se ajudarem a cuidar da casa, sabe como é, tantos assaltos, não que esteja querendo me intrometer …

Eu e minha filha vamos embora, disse ela sem nenhuma afetação. Até logo e obrigada por ter cuidado dela.

Ah, não há de quê. Nos divertimos muito… Bem… espero que tudo dê certo.

Eu também espero. Tchau, tio Vizinho – terminou a pequena duende abanando as minúsculas mãos com o sorriso horroroso estampado naquele rosto de outro planeta. Como é que pode uma criança ser tão esquisita desse jeito?

Afonso voltou para casa com a sensação de que tinha perdido alguma parte muito importante da novela. Que gente mais estranha, essa aí… Alimentou o rato da índia com a ração que daria a Melissa, caso a mãe demorasse mesmo a aparecer. Não aguentou meia hora: subiu para o quarto e olhou pelas frestas da veneziana. Nenhum cachorro, silêncio completo, apenas o movimento das luzes da TV, por trás da cortina na janela de vidro. Melissa não gritava. Portas não se batiam. Numa certa hora o irmão sócio chegou de mansinho, entrou sem bater. Ficou durante vários minutos. Afonso desligou a televisão, apagou a luz, fez de tudo para ver se conseguia ouvir qualquer sussurro que fosse. Logo só viu o rapaz indo embora. Saiu sozinho, cabisbaixo e palitando os dentes. Germano não aparecia. Mesmo tarde da noite, não o ouviu chegar, como era de costume.  Nunca mais o viu, desde então.

Dois dias depois de completo silêncio, ouviu quando um rapaz colocava a nova placa de “aluga-se” no portão. Em poucas semanas, mudou-se um casal de velhinhos simpáticos. Sem crianças e sem cães. Carregavam apenas uma gaiola com um casal de periquitos. Bem, pelo menos vou dormir mais cedo de agora em diante, pensou ele tentando afugentar as saudades dos antigos vizinhos.

Ainda ficou intrigado, durante uns tempos. Repassava as atitudes da ruiva, as palavras sem nexo de Melissa. O sumiço do narigudo espinhento, que, segundo as histórias fantásticas da menina-duende, havia se transformado num tomate sem ossos. Nem veio buscar as coisas. Como é que uma pessoa desaparece assim, no meio de nada? Mesmo um homem que se esconde da própria miséria nunca consegue ficar sumido para sempre. A não ser, claro, que não faça falta a ninguém, nem mesmo a um rato da índia. A não ser a uma Melissa-duende, que sentirá um dia ou outro falta da única figura, talvez, que tenha chegado mais perto à de um pai, se é que se sente mesmo falta de um pai. Quando a única coisa que se tem é mesmo a única, a ausência costuma ficar presente.

Afonso, deixe de ser tão iludido. O que aconteceu foi somente a separação de um casal. Coisa muito comum. Que sem graça. Nem chegaram a se pegar a tapas, depois de tanta bagunça e pratos quebrados.

Depois de alguns dias, já amenizada tanta curiosidade, descascou uma banana e foi comer espiando pela veneziana da janela. Se venezianas fossem eletrodomésticos, ele se disporia a consertá-las, para que pudesse continuar a ver a novela dos vizinhos. Ainda sentia saudades daquela gente, até mesmo do barulho que o acordaria no meio da madrugada, quando as brigas começassem. Nunca havia passado por ali vizinhos tão interessantes.

Esticou o pescoço, para fixar melhor o olhar no pé de pitangas, teve a forte impressão de que algo estava diferente, alterado. A árvore adolescente parecia ter crescido e, pela primeira vez desde que se lembrava de sua existência, como se tivesse recebido grande dose de adubo, começava a dar frutos.

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A senhora que dizia tudo o que pensava.

Há quem acredite naquela fala popular cuja moral nos aconselha a não se dizer tudo o que se pensa, caso não desejemos fazer inimigos. Pelo menos, o conselho é o de que não se diga tudo à pessoa com quem se fala; o maldizer pelas costas do difamado existe há séculos e, conforme se atesta nos anais da História, tem evitado confrontos diretos e, ao mesmo tempo, tem mantido a amizade entre os membros de famílias do bem, assim como a sociedade civilizada.

Contudo, existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia, e a senhora Madalena foi uma delas. Agraciada pela abundância e velhice tranquila que poucos da idade dela alcançam, podia dizer o que bem entendesse, sem ser expulsa ou isolada das rodas dos seres com quem convivia; ao contrário, sua roda de amigos e parentes crescia feito bolor em dia úmido e quente. Muitas vezes ela exagerava, sua língua não tinha parada e seu julgamento, direito conquistado arbitrariamente pela idade e pela segurança de quem acha que diz a verdade absoluta, era sempre cruel, unilateral e autoritário.

Também se engana quem logo se der ao luxo de pensar que a distinta senhora apenas despejava livremente seus pensamentos em forma de palavras ríspidas e sem nenhuma diplomacia sobre subordinados, fracos ou oprimidos. De jeito nenhum. Podia ser a nora, a cunhada, a amiga mais próxima, os próprios filhos, até o diretor ou representante do mais alto escalão que tivesse a infelicidade de cruzar-lhe o caminho e, aos olhos dela, de ser estúpido, hipócrita, mal aparentado ou coisa que o valha. Ninguém ousava destituí-la desse poder.  Do mesmo modo, ninguém ousava replicar; engoliam a ofensa e ainda às vezes até sorriam, pois a única criatura no mundo de que se tinha o conhecimento sobre o domínio de tal talento era a senhora Madalena.

Por que todos aceitavam suas cruéis palavras passivamente era pergunta recorrente, mas sem muito peso nas cabecinhas que a rodeavam ou que lhe frequentavam a casa. Havia, em muitos, a necessidade de ser julgado e condenado. Outros encaravam como divertimento, nada a ser levado tão a sério. Alguns desconfiavam de sua sanidade e relevavam. Houve quem arriscasse dizer que ela possuía poderes extraterrestres; outros ainda fugiam da única maneira possível: morrendo, como foi o caso de seu esposo. Homem que quase nunca dizia muita coisa e sufocou-se com todas as palavras que não disse, materializadas pelo caroço de azeitona.

O mais interessante era que a maioria das pessoas gostava dela. A senhora Madalena era divertida e muito coerente e, quando dizia “meu deus, minha nora, hoje acordaste com cara de berinjela atropelada por um trem de carga!”, as pessoas se punham também a julgar a vítima de forma severa ou jocosa, quase sempre concordando com a colocação vinda do nada. Certa tensão pairava no ar em dias de festas, quando a família era obrigada a se reunir. Senhora Madalena estará lá, pensavam. Cuidavam do cabelo, dos dentes, das roupas, das falas distraídas, preocupações geralmente infrutíferas, pois, se aos olhos de senhora Madalena houvesse algo errado, decerto seria exposto publicamente. Mães diziam às crianças: “só cheguem perto dela, se ela os chamar…!” Mas se porventura faltasse a algum evento familiar, todos se entristeciam.

Certa vez, na festa de seu sexagésimo nono aniversário, a senhora Madalena estava mais contente do que de costume, por isso falava mais. Recebia os convidados sempre com uma observação mordaz, embora muito sincera: “meu deus, criatura, não me lembrava desse monte de filhos que fizeste! Foi por ignorância mesmo ou o cio durou mais do que o tempo normal?” Risadas, algumas constrangidas, outras forçadas, algumas que se transformavam em gargalhadas. Depois ela completava, demonstrando certa erudição: “Bem, o que fazer, não é, alguém já afirmou há tempos que filhos demais geralmente expressam a necessidade de autoafirmação da virilidade do homem.” À nora, assim que chegou, disse: “que horror essa tua blusinha, minha querida… desculpe meu conservadorismo, mas não achas que tua idade e constituição física merecem algo mais sofisticado?” A nora jamais responderia a tamanha ofensa sem sentido. Sentia-se superior ensaiando expressão de benevolência e tolerância com os mais velhos. A bondade, decência e alegria eram suas características mais marcantes.

À certa altura, chamou a filha e lhe pediu, sempre com a voz doce, serena, tonal: “minha filha amada, segura os teus moleques mal educados, por favor, sim? Não me meto na educação que eles recebem de ti e de teu marido, mas aqui em minha casa eles têm de se comportar. Se quebrarem alguma coisa, já sabes…”

A filha prontamente chamava os meninos e ficava mais atenta a eles, coisa que sempre se esquecia de fazer. Não havia ressentimento em seus gestos, tornavam-se inclusive mecânicos, como se já esperasse ouvir algo que, para a maioria das pessoas, soaria desagradável e rude. Se não levasse uma bronca sequer quando se encontrava com a mãe, estranharia.

Havia um convidado solene naquele dia, o vereador, antes amigo de infância, a que muitos chamavam de doutor, pois não era para qualquer um ter uma personalidade política como amigo da família. Senhora Madalena, porém, dizia em alto e bom tom: “sabes que só vou chamar-te de doutor no dia em que fizeres doutorado, não é, meu caro? Pois todos sabemos que mal terminaste a faculdade, inclusive sempre colando nas provas – de mim!” O doutor ria, como se tivesse ouvido uma ótima piada, segurava-lhe a mão e a beijava com muito carinho. “E tua esposa, aquela mulher de pouca inteligência e de muita sorte?”

Todavia, a senhora Madalena também elogiava, nem tudo eram somente críticas e, quando isso acontecia, as pessoas davam mais valor, uma vez que ninguém a poderia acusar de falsidade: se elogiava, era porque realmente achava bom. “Minha neta maravilhosa, esse vestido te cai muito bem! Nada como ser adequada, nestes dias em que a adequação deu lugar a alguns arroubos de total falta de bom senso!” Os netos adolescentes a adoravam, nunca se soube explicar a razão, pois não era dada a presentes ou mimos de avó.

Nesta mesma ocasião fez um elogio que provocou inveja até mesmo nas pessoas mais chegadas e acostumadas com os modos genuínos da senhora Madalena. Claro que, para muitos que não a conheciam profundamente, a forma do elogio foi um tanto estranha, mas quem conhecia a lendária senhora Madalena sabia que não havia nenhum sarcasmo em sua fala. Foi para a cunhada, que frequentemente também era alvo de cruéis observações no que dizia respeito a quase tudo na vida. “Ótima escolha iniciar esse curso novo, minha dileta cunhada! Estou te admirando muito! Mesmo depois de velhas, não devemos deixar enferrujar o cérebro; até que enfim entendeste que a vida não gira em torno daquele teu marido perturbado e dos teus filhos egoístas! Antes tarde do que nunca!”

Para uma criatura que nada guardava de mágoas e ressentimentos, a senhora Madalena viveu pouco. Morreu aos cento e dois anos de idade, enquanto cochilava na varanda de seu apartamento simples. Antes de fechar os olhos e a boca para sempre, tinha feito uma frugal refeição da tarde com um amigo dos tempos da faculdade. Assim que o amigo se foi, ela se sentou ali para observar os beija-flores que vinham tomar água em sua varanda e ler alguns contos russos.

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Reflexões de um sujeito volúvel e sovina.

Estava sossegado, quieto, pensando em chavascas ou, mais especificamente, na chavasca do momento, enquanto tentava construir a prateleira para colocar no quarto dos moleques. Pensar não era crime, não dava zulu. Lixava a peça cuidadosamente, tinha aprendido naqueles manuais que arrumou no Google. A esposa ordenou que fizesse pelo menos quatro, para poder arrumar os livros do mais velho, empilhados do lado da cama.

Enquanto a mão ia e vinha, espantou os pensamentos eróticos. Voltaria a eles na hora do banho, quando poderia respirar um pouco – sinônimo de bater uma punheta, sem metáforas inúteis para este momento – e daí poderia pensar na chavasca da vez: a cliente loira que conhecera havia uns três meses. Ele bem que tentou resistir, mas a mulher explicitamente demonstrava interesse. Ponderou: casada também, portanto menos perigoso. Deliciosa chavasca loira. Inteligência não tinha muita, mas isso era de menos.  Não se trepa com inteligência, muitas vezes até atrapalha. Por isso achava a esposa perfeita e decente. Ela parecia inteligente, poucas vezes fazia feio, e isso bastava. No fundo, era apenas esperta. Alguns chatos detalhistas dizem que esperteza e inteligência são coisas diferentes, mas quem se importava com isso? O importante mesmo na vida era ter responsabilidades, cuidar de algo: moleques, esposa, carro e samambaias. Se não tivesse tudo isso, a fim de fingir ser feliz, compraria um cão. Na melhor das hipóteses, vários. Cães obedeciam, não questionavam, nem exigiam mudanças radicais de pensamento.

Pegou o livro que servia como medida com uma careta de tédio. Nestes tempos de necessidade de preservação do meio ambiente, deviam proibir esses poetas de publicarem poemas. Poesia era o cacete, não servia para nada, desperdício de papel, já que só usam o meio da folha para escreverem palavras que a gente nem entende. E, se a gente não entende, melhor deixar para lá, trabalho já tinha demais na vida. Às vezes escrevem três ou quatro linhas, chamam aquilo de poema, mudam de página para botar outro, e ainda cobram para a gente ler. Escritores de histórias também, não tinha um que prestasse. Centenas de folhas de papel com bobagens que não davam em nada. Bobagens que não complementavam a renda, não pagavam a escola, a conta de água, os impostos, que andavam pela hora da morte.

Mediu a largura da prateleira com o livro. Perfeito. Depois de pronto, tiraria uma foto, para mostrar aos amigos. Embora não acreditasse em que livros serviam para alguma coisa, jamais poderia admitir isso aos outros. No mínimo, enfeitariam as paredes do quarto dos moleques, no lugar daqueles pôsteres do Homem Aranha ou do Patati-Patatá. Conciliador que era, jamais discutia com gente que gostava de livros. Perda de tempo. Se não concordava, apenas ficava quieto, atitude que não ameaçava o jeito de pensar, dura e solidamente construído durante anos, reprodução costurada das falas de pessoas que admirou, de maneira ou outra. Admirou seria exagero dizer, pois nunca admirou verdadeiramente ninguém, a não ser ele mesmo. Mais simples: ouvia as frases, achava bacana e guardava. Costurava com outra que parecesse ter lógica, decorava datas e alguns nomes que achava serem importantes, para parecer bem informado e crítico. O toque final: falsa modéstia, quando se rebaixava com toda segurança de quem sabe que todos diriam, “oh, imagine, que homem inteligente e realizado você é!”.

Decorou muitas frases-feitas da esposa: quando não tem o que dizer, faz parte; quando quer parecer boa praça, os amigos são tudo na vida; quando quer representar decência e responsabilidade, faço tudo pelos meus filhos; quando simula que é humano, ser mãe é pura magia; quando finge maturidade,  hora de botar a cabeça no lugar, parei com as trapalhadas

Procurou uma latinha de cerveja no pequeno freezer de segunda mão, presente do sogro. Colocou na garagem, como se pudesse ser somente seu. Nada de latinha. Lembrou-se de que Miltinho e a esposa estiveram lá e não tinham levado cervejas, de maneira que acabaram com todas que havia. Ele mesmo nunca levava, quando iam a casa deles, a não ser quando combinado antes. Mas também não aceitava. Aprendeu assim: se não quer gastar, também não gaste as dos outros. No máximo um café, ainda que café dos bons também estivesse pela hora da morte. Não existe almoço grátis.

Com a gostosa loira destituída de inteligência também. No máximo, levava preservativos e tomava um copo de água. Afinal, ia até ela para trepar, não para conversar. Tinha pavor de ser enganado e explorado, principalmente pelas mulheres aventureiras. Não era idiota não, mulheres aventureiras não faltavam no mundo.

Voltou a lixar, faltavam ainda duas prateleiras. Depois, óleo de peroba e verniz, para proteger a superfície. Botaria uns livros antigos seus também, para preencher e enfeitar melhor. O moleque mais velho não tinha tantos livros assim, por que a esposa mandou fazer tantas, ele não entendia. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Lembrou-se daquela morena do ABC. Gostosa também, mas meio folgada. Teve muitas vezes de ser bronco com ela, coisa que achava que era só quando queria. Tinha dinheiro a morena, mas dividia a conta do motel. Certa vez ela escolheu um motel daqueles de luxo, mas o quarto medianamente barato. Adivinhava que ele não poderia pagar, assim que o ouviu dizer: “é, escolhe esse daí, não tenho mesmo muito tempo”. Ela só levantou a sobrancelha como quem diz: “nossa, e quem falou em ficar muito tempo?” ela não disse realmente isso, ele mesmo não sabe por que chegou a pensar que adivinhava o que a vadia pensava. Não gostou muito de ter adivinhado, dava a entender que ele era rápido demais. Mas tinha de ser, ela que compreendesse, sabia muito bem de sua situação, que ele nunca mentiu a nenhuma delas. A não ser daquela primeira vez em que treparam, quando ela queria passar a noite no motel. Daria muito bem para ele ficar, a família estava no litoral, mas jamais faria isso. Passar noite era arriscado demais, ainda mais que os vizinhos – entre eles o sogro siciliano – estariam de olho. Mas mentiu para a morena, dizendo que ia trabalhar muito cedo. Não queria parecer tão cauteloso pouco-a-pouco. Menos mal.

Não tinha mais em que pensar. Então resolveu terminar as prateleiras na próxima folga que tivesse; empilhou-as num canto, gostava de tudo arrumado. Pensar e estabelecer relações cansava mais do que lixar prateleiras que a esposa tinha mandado fazer. Voltaria para a TV ou para o computador. Talvez inventasse um passeio bem rápido com os moleques e a patroa, que não gastasse muito dinheiro. Pôr o pé na rua já significava gastar dinheiro, um inferno. Mas para tudo se dava jeito, o importante na vida era ser feliz.

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Tarde maravilhosa com os amigos, que Deus nos abençoe.

Tudo é mal cuidado ali, do que se vê: o muro lateral que protege a casa recém-construída e ainda inacabada, com respingos de reboco, deixando transparecer os tijolos vermelhos, meio quebrados; quadrados grandes e pequenos ligados por cimento, sem muito desenho, nem plano; a expressão abatida, melancólica e patética do marido vendo a televisão; os moleques espalhando bagunça pela casa inteira, os cabelos ressecados da tintura loira, presos com um paninho velho e encardido, deixando à mostra o pescoço e o colo de mulher satisfeita que aceita tudo na vida; e por muito tempo.

Uma vez somente sugeriu separação, mas logo se arrependeu. Imaginou o pobre coitado não tendo para onde ir, nem para quem correr, pois as vadias com quem saía não o queriam morando com elas. Decidiu salvar aquilo de qualquer maneira. Além do mais, as contas ficariam mais pesadas e o infeliz realmente não teria como pagar uma pensão digna para ela e os filhos. Achou melhor continuar, ficava mais fácil, mais certo e decidiu construir solidamente o simulacro de amor, solidariedade e tolerância, para mantê-lo quieto, como se devia fazer quando se cuida de uma samambaia. Homem dentro de casa que assumia despesas junto da mulher era meio raro naqueles tempos e, bem ou mal, ele, com toda sua sovinice, até que mantinha as contas em dia. Acima de tudo, ela era sua rainha da cocada loira, ele jamais pensaria de outra forma, mesmo se estivesse acostumado a pensar.

Naquele final de semana, acabavam de almoçar e os amigos telefonaram, perguntando se podiam ir até a casa deles, para tomarem cerveja e botarem a conversa em dia. Ela achou ótimo, perguntou ao marido se sairiam, apenas mesmo por perguntar, pois as finanças andavam escassas por ordem maior das inúmeras contas a pagar, e ela sabia que não sairiam; no máximo, desceriam para a casa do pai, para racharem um lanche. A visita dos amigos seria mais divertida do que isso, variar os programas se fazia necessário, embora o limite das variantes fosse bem delimitado. Mas era digno representar aquele papel de família que passeia frequentemente. Tinha sido a escolha, ainda que escolha sem muitas opções. Ele, bem sintonizado com a esposa naquela vida de detalhes importantes, só fez um sinal para que ela pedisse aos amigos que trouxessem mais cerveja.

Quando eles chegaram, Rômulo e Paulinha, casal e dois filhos, ela já tinha terminado de lavar a louça e enxugava as mãos em um pano encardido, como tudo nela: dona de casa, grande e deformada pela vida, pelos filhos, pela submissão a um compromisso de séculos, botando a cozinha em ordem. O marido ajudava, mas naquele dia teve de se envolver no banho do caçula, que se vomitou todo em cima da roupa.  Passou a mão nos cabelos, para melhorar o que tinha de pior, abraçou e beijou todos, sempre com a expressão feliz, de bem com a vida, o sorriso de dentes pequenos e escurecidos pelas obturações mal feitas. Quem podia com tanta fertilidade?

Sentaram-se no quintalzinho lateral, onde havia um banco de madeira junto ao muro com reboco inacabado, abriram a primeira latinha de cerveja que ainda havia na geladeira – o casal trouxe outra caixa, mas precisava gelar – e começaram falando muito. Conversas superficiais, divertidas, algumas risadas, o início de celebração da amizade numa tarde ensolarada. Animados, como todo começo de encontro, comentavam a vida dos outros, principalmente do Miltinho, com quem o casal amigo havia se desentendido. Costumavam se reunir sempre, eles com Miltinho e toda sua família, eram inseparáveis companheiros de churrascos, que aconteciam geralmente na garagem dele. Mas em uma ocasião, Miltinho, já bem alterado pelas quinze latinhas de cerveja que ingeriu naquele dia, falou alguma coisa torta para Rômulo, cuja esposa também saiu em sua ferrenha defesa e foi o estremecimento daquela amizade de anos. No momento estavam assim, não se falavam mais. A esposa de Miltinho, mais sensata e madura do que o marido, tentou depois agir normalmente, como se nada tivesse acontecido. Mas nada ainda estava normal, via-se bem, pois Miltinho e sua família decerto estariam ali também compartilhando as latinhas de cerveja e o bate papo descontraído.

Falavam então dele, de suas atitudes muitas vezes infantis; bebia demais, nem na favela as pessoas bebem desse jeito. Vai ser bom dar um tempo.  Quem se saiu com essa foi Paulinha, enquanto tentava tirar uma foto bacana para exibir a todos que quisessem ver aquela amizade tão bonita entre gente de juízo e cabeça no lugar. O que ela esqueceu nessa hora foi que o próprio marido também gostava bastante de beber, mas logo lembrou e ainda o defendeu amorosamente, dizendo que não era daqueles bêbados chatos; ele ficava mais lindão e divertido.

O dono da casa ficou quieto, só levantou as pestanas. Não gostava muito de se expressar, justamente para não se comprometer, ou para não parecer estúpido, embora nem sempre conseguisse. Sua esposa disse a frase que costumava sempre dizer, quando nada de interessante tinha a dizer: é, faz parte.

Então Rômulo achou melhor mudar de assunto e comentou sobre a favela nova que estava se amontoando perto da avenida principal. Um absurdo, a avenida vai ficar mais feia do que já é. Esse povo sem noção depois fica atrapalhando a vida da gente, quando os homens vão lá tirar tudo.

Continuaram a conversa costurada de frases feitas até quase de tardezinha, já que os comentários sobre Miltinho haviam se esgotado. O importante era falar, enquanto a cerveja não acabasse, para não ficar aquele vazio constrangedor de falta de assunto que empolgasse. Conseguiram por algum tempo, mas logo, quando parecia que algo interessante e que renderia uma conversa mais longa ia acontecer, um dos moleques vinha interrompê-los, pedindo algo e o assunto era esquecido. Aconteceu umas cinco vezes, até que desistiram. Daí começaram a falar do tempo, da casa lá da frente, da escola das crianças. O assunto minava-se a cada minuto, deixando aquela atmosfera decepcionada de quando se quer ficar, mas não há mais como.

Estava um dia de calor e havia pernilongos famintos rondando-os. Os donos da casa deixaram escapar um ou outro bocejo. Paulinha sugeriu que fossem para a casa deles agora, ao que a loira recusou. Precisaria dar banho em todos os moleques, ficaria muito tarde. Amanhã seria domingo, mas nem sempre era domingo para todos.

Todos se sentiram obrigados a se sentirem felizes e satisfeitos com a vida, quando a família se despediu e foi embora; a menina mais nova dormia no colo do pai.

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“… munido de fórmulas, retendo e prodigalizando as frases feitas que se dizem regularmente em Paris, para trocar em miúdos aos tolos o sentido das grandes ideias ou dos fatos, os círculos sociais o reputaram homem de gosto e de saber.”
                                                   

(Honoré de Balzac. A comédia humana)

 Esboço.  

Chegou a gerente por meio de muito trabalho: pagou do próprio bolso – e continua pagando – almoços a clientes e às devotadas funcionárias, certo de que o retorno estava garantido. Fez até faculdade, o que não é nada fácil nos tempos de hoje. Além disso, tinha olhos verdes em pele jambo, lembrava um jogador de futebol malandro e sensual em que se bota camisa, terno e gravata. Muito esperto e escorregadio, sabia extrair de suas subordinadas toda a dedicação necessária, sem se comprometer com problemas de ordem secundária.

Claro que às vezes precisava de manobras mais radicais, como aconteceu com Josi, a funcionária mais velha da casa, de tintura loira e olhos verdes, que se insinuava com brincadeiras que às vezes ultrapassavam os limites do bom senso. Não que ela demonstrasse intenções bem definidas, era apenas o jeito dela, não tinha a mínima noção de como se fazia ridícula e inconveniente essa postura de mulher liberal, elogiando-lhe os olhos e a esperteza. O marido de Josi tinha algo a ver com os militares e, com essa gente, nunca se sabe, melhor não se aprofundar nas gracinhas, mesmo sem segundas intenções; mesmo porque ele admirava deveras os militares.  Ainda se diga brevemente, a mulher não fazia seu tipo, ele admirava as que aparentavam menos de cinquenta e não cometiam tantos erros de ortografia ao preencher as fichas dos clientes.

Para se livrar da situação constrangedora, marcou um jantar entre famílias: sua segunda esposa, sonsa e melodramática, a filha ainda bebê e a família da senhora loira. Como dizia um filósofo, sabe-se lá o nome e a origem dele, a melhor maneira de se livrar das trevas era abrir a janela ao sol. Diga-se, de passagem, que a primeira esposa também era igual à segunda – sonsa e melodramática – já que para ele não fazia diferença. Tinha um filho com ela também, um garoto muito parecido com a mãe. Ficaram assim muito amigos e, depois do quarto rebento, Josi sossegou bastante.

Mas com as jovens era mais fácil. Espertas e determinadas a concluir os estudos, manejavam bem as situações que oscilavam entre brincadeiras e trabalho. Muitas daquela geração tinham realmente nascido para esse mundo de competições acirradas. Aparentemente respeitava todas, mas jogava o charme de homem bonito de maneira inocente, para conseguir um relatório mais rápido, um duplicata bem feita, um sorriso mais doce para os clientes.

Fazia amizade facilmente, demonstrava simplicidade, igualdade e fraternidade, mesmo sendo gerente; alguns dos funcionários seus subordinados mais chegados, em muitos finais de semana, recebiam-no alegres em suas tristes casas de muros de blocos vermelhos com reboco inacabado e com pouca cerveja na geladeira, onde também a miséria humana se fazia sentir no ar, no cheiro de esgoto vindo da rua mal cuidada, nos olhos tristes e nada culpados, por existirem tão sossegados e hipócritas. Não se tratava apenas da miséria da falta de dinheiro, daquela que exigia o cuidado de aparecer somente após o horário de almoço, para não comprometer o rendimento das porções em cada prato, mas da miséria das expectativas que eles tinham. Ou seja, não tinham expectativas, a não ser aquelas ditas por todos em momentos de sonho impossível e que não oferecem perigo, já que nunca se realizarão. De que adiantava expor as próprias misérias, apenas para sentirem-se mais miseráveis? Sonhar e imaginar quieto e conformado em um sofá quase confortável em frente à TV sempre foi mais seguro.

Mas o homem procurava deixar bem claro que eram todos iguais, embora fosse o melhor, com toda a humildade que sabia representar. Alguns mais tolos gostavam dele justamente por isso: tão elegante e bem sucedido – gerente – mas tão simples; tinha uma família bonita e era bonito tê-los como amigos. Era de urgência inconteste fazer parte de um grupo em uma grande cidade de anônimos, ainda mais de um grupo considerado bonito, saudável, normal. Nunca dizia asneiras a respeito dos problemas econômicos do país, sempre tinha resposta pronta e politicamente correta para tudo. Se fosse nomeado ministro da fazenda, o país estaria salvo, pois, segundo ele, o que estragava nossa vida eram as complexidades. O governo complicava tudo, só para nos roubar, era o que invariavelmente dizia.

O meio corporativo não, esse nunca roubava. Bons funcionários sempre conseguiam crescer, se realmente fossem bons – como ele próprio. O mundo dos negócios e das finanças deixava de ser aquilo que a maioria das pessoas de fora pensava: sórdido, hipócrita, sem alma. Aquela história ultrapassada de exploração era coisa do passado e de intelectuais bichonas. Apenas justas, as empresas do bem cuidavam dos funcionários competentes. Os incompetentes, que fossem se atualizar! Não que ele fosse presidente, subdiretor, ou algo que o valha, era apenas gerente, mas não deixava de ser um cargo muito promissor e bacana. Ninguém dava meias-voltas, ao lhe ser perguntada a profissão, quando se era gerente, seja lá do que fosse.  A resposta, sempre imediata, sugeria confiança e orgulho. Ser frentista, por exemplo, ou camelô, pode exigir as mesmas habilidades no trato social, mas não era elegante, assim pensava o grande homem e todos os seus amigos.

Mas eis que, numa certa segunda feira de outubro, estava o homem feliz a tomar o café das onze na lanchonete do lado do trabalho, com duas colegas de tailleur e sapatos de salto alto, cabelos escovados no cabeleireiro e unhas bem feitas. Ele, de paletó e gravata, apesar do calor. Tinha feito um belo almoço com os amigos no domingo, o que implicava muito álcool nos coquetéis inventados de última hora, e a ressaca persistia. Tomou duas garrafas de água gelada sem gás, antes do cappuccino e do costumeiro pão de queijo recheado de requeijão.

Uma garota de no máximo cinco anos, na fila do caixa e de mãos dadas com uma mulher, provavelmente sua mãe, olhava insistentemente para ele. Sua expressão era séria, como se estivesse enxergando algo que não se devia enxergar. Chegava a franzir a testa toda. Ele tentou brincar com ela, não gostava de cara feia em crianças, não era normal. Fez caretas, abanou a mão dando tchauzinho, chegou até a lhe jogar um beijinho. A menina parecia de gesso, mal piscava, ainda que continuasse com os olhos fixos nele. Será que estou hoje com cara de palhaço feio, aqueles que assustam as crianças? Começou a ficar incomodado, mas cismou que não sairia dali sem arrancar um sorriso daquela menina.

A mãe soltou-lhe a mão e, sem tirar os olhos dela, carregou a bandeja com uma xícara de café e um copo grande com leite e chocolate, procurando uma mesa adequada e logo se dirigiu até justamente uma mesa em frente à deles. A menina chegou a virar toda a cabecinha encaracolada para que os olhos não saíssem do lugar. A mãe sentou-se de frente a ele e a menina ao seu lado, na mesa redonda. Para continuar olhando para ele, agora tinha somente que virar a cabeça um pouco de lado; a mãe afetuosa distribuiu o que cada uma delas tomaria, chamando-lhe a atenção; era possível ouvir o que diziam, o café não estava muito cheio àquela hora. A menina atendeu ao chamado da mãe por uns segundos, pegou o grande copo de leite com chocolate e enfiou o canudo na boca, voltando a olhá-lo, agora de maneira irritante. Ele se lembrou da própria filha, e tentou também lembrar se a tinha ensinado a não ficar encarando as pessoas daquele jeito tão perturbador.

Ao pensar isso, ouviu a mulher dizer:

“Filha… filha o que você tanto olha para o moço, pare com isso, é feio!”

A menina pôs o copo sobre a mesa, com ajuda da mãe, pois ainda não a alcançava satisfatoriamente. Passou o dorso da pequena mão na boca e disse:

“Que moço, mamãe? Tem um terno ali; um terno que anda sozinho.”

A mãe riu meio constrangida, olhou para ele sem graça e depois o mediu com os olhos. Achou que ele compreenderia as falas desconexas de uma criança que tem imaginação fértil, tão fértil como o útero de uma mulher que deseja engravidar.

Ele sentiu um baque, igual a quando se recebe notícia da morte de alguém muito conhecido. Como assim? O que a menina disse foi um absurdo tão grande que fazia pleno sentido, um sentido que ele não entendia bem qual era, mas era tanto sentido que ele achou que fosse sufocar.

As moças que o acompanhavam perceberam o transtorno repentino na palidez do rosto jambo e perguntavam se estava bem. Ele fazia que sim, mas não conseguia articular o pensamento para dizer nada, tamanha era a força com que as palavras da menina ecoavam no seu cérebro. Bancarrota: talvez tenha sido assim que os homens que se atiraram das janelas dos grandes prédios no Crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque se sentiram na derradeira hora.  Distraído, abriu uma brecha, para o mundo das pessoas que pensam entrar e fazer o estrago. Incomodava tanto quanto um enorme vazio se movimentando no escuro de dentro de um guarda roupa mofado, se tivesse de exagerar, para assim melhor entender.

Ficou algumas semanas naquela perturbação que ia e voltava, quieto, sem conversa que valesse a pena. A esposa atribuiu aquele mal estar a uma fase passageira, o trabalho do marido não era fácil. Não perguntava muito, sabia que ele não entraria em detalhes. Apenas olhava para ela, como se ela também não fizesse sentido nenhum; não brincava mais com os filhos como antes, quando parecia um moleque a fazer travessuras. Ele os olhava como se dissesse: o que será de vocês?

Contudo ele tinha esperanças de que aquilo passasse, desde garoto tinha aprendido a ter esperança de fazer parte de um lindo e ensaiado álbum de fotografias. Como fazer para nadar novamente até a superfície e se livrar da profundeza das complexidades que lhe queriam roubar a alma tão sossegada, tão sem mistérios, embora prisioneira, estava tentando descobrir. No início, achava que o problema era o terno. Todavia, nos finais de semana, quando tentava se descontrair, de camiseta, bermuda e sandálias de franciscanos, parecia que a coisa piorava. A substância tão certa de que era feito parecia ondular em movimentos ameaçadores, para fora dele mesmo, e sua existência se comprometia ainda mais. Dizem que passarinhos de cativeiro morrem ao serem libertados.

Só que não aguentou nadar, tentar subir, cansou-se e resolveu desistir. O vírus do susto ao se deparar com a própria miséria já havia atingido a corrente sanguínea e se espalhado rapidamente; estava contaminado pela inteligência mais desenvolvida que sempre temeu. Onde teria se distraído, para deixar a contaminação cruel atingi-lo de modo tão fatal? Sempre blindou o pensamento contra as complicações do mundo, apenas queria morrer velho, com alguns netos, dentro de sua propriedade bem cuidada, talvez com a esposa ao seu lado, ambos tomando um prato de sopa de legumes em noite gelada de inverno, certo de que havia feito tudo corretamente ao longo de sua vida, exceto por poucos deslizes comuns a qualquer ser humano. Talvez fosse esse o grande problema: percebeu que era humano e isso era a infelicidade total.

Em um sábado, enquanto esperava os amigos chegarem para uma tarde descompromissada de petiscos e cerveja, ele disse à esposa que iria até a padaria, para comprar mais alguns refrigerantes para as crianças.

Os amigos chegaram, esperaram por mais tempo do que o normal. Começaram a petiscar e a beber. Nada.

Procuraram em todos os lugares em que se procura um desaparecido em uma grande metrópole, mas nunca o acharam, nem vivo, nem morto; ele nunca mais voltou.

A esposa, em dez anos, não se casou novamente e, até hoje, guarda uma camisa, uma de suas gravatas favoritas e o terno, que manda lavar pelo menos uma vez por mês.

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O grande amor do passado.

A história da alma de uma pessoa, por mais mesquinha que seja, quase chega a ser curiosa e mais útil que a história de um povo inteiro…

Mikhail Liérmontov. “Taman”.

…. Sapient sat….

Tinha conhecido Lucileia no colégio e nomeou-a o grande amor de sua vida. Ela, que o ensinou a beijar um pouco menos pior do que quando beijou pela primeira vez.

Separaram-se como quase todos os adolescentes se separam: com a dor do fim do mundo. Os anos se passaram, ele seguiu carreira militar, casou-se de maneira sem graça, aquelas coisas que vão acontecendo sem acontecer. Sempre a inquietação de que encontraria algo de maravilhoso na vida. Quase nada o fazia pleno. A esposa foi tomando conta de tudo, mansa, decente, solidária, mas distante de tudo, pois quem pretende ser o centro do universo, mantém-se distante de tudo. Fazia o tipo assanhadinha, mas ponderada, e isso estava bom para ele. Que mais poderia querer da vida, além de encontrar uma mulher que quisesse as mesmas coisas que ele? Ou quase as mesmas coisas. Melhor ainda: uma mulher que desejava as coisas por ele. Mesmo assim, tinham um projeto de vida comum, como sociedade quase limitada, pois há de se considerar que ela tinha muitos irmãos, o que significava cunhados.

Só que queria.  E a lembrança de Lucileia sempre tornava, cada vez menos nítida, cada vez mais sonho. Então decidiu reencontrá-la. Sempre manteve na cabeça essa intenção, mas ainda era apenas uma intenção, talvez um sonho de descobrir o que buscava, pois, em verdade, não conseguia saber. Já com o quarto filho a caminho, lançou-se na aparente impossível empreitada: buscou no antigo colégio por seu nome – jamais soube o sobrenome – descobriu que os pais ainda moravam na cidade. Aquela busca preenchia sua vida de alegria tamanha, que se esquecia de tudo; sua vida que às vezes nem alegria tinha que fosse de verdade. Esquecia-se de tudo, de tudo o que um homem além do normal, de quarenta anos, nunca deveria se esquecer. A esposa e os filhos transformaram-se naquele momento em blusas de lã guardadas no fundo de armários, em pleno verão. Quanto mais se aproximava do momento de encontrar Lucileia, mais alegria sentia; cada passo em direção ao reencontro que planejava aproximava-o do sentido de sua existência.

Conseguiu contato com a mulher. Passaram a trocar mensagens. No início, ela desconfiou um pouco, nunca se sabe hoje em dia que tipo de pessoas nos aborda. Mas logo, trocando lembranças daqueles tempos de adolescência, do namoro intenso, das carícias ainda proibidas, tudo muito mágico, ela se convenceu. Ele aproveitou a fase de quarentena e amamentação da esposa e marcaram de se encontrar.

Ansiedade alegre, como adolescente que descobria o novo. Não podia ficar muito tempo fora de casa, a esposa ficava mais horas do dia em silêncio do que o normal, quando isso acontecia. Mas não se importou muito com esse problema. Aquele dia poderia ser o da grande descoberta de sua vida – a mulher que buscava sempre, sempre. Combinaram um almoço.

Ele chegou primeiro e, quando a viu se aproximando da mesa, logo a reconheceu. Decidiu que continuava bonita. A cintura um pouco mais redonda, as bochechas um pouco mais caídas. Mas era sua Lucileia, o grande amor do passado. A vontade de saber no que iria dar aquele encontro era sensação mais gostosa do que realmente encontrá-la. Olhares, conversas que remetiam àqueles tempos que eram bonitos; revelações. Lucileia também estava casada e tinha filhos. Foi praticamente tudo o que falaram do hoje. Ele buscou aquela paixão doentia do passado e se enganou dentro daquilo. Acabaram a tarde na cama de um motel quase barato, entre juras de amor e a sensação de que queriam ficar juntos para o resto de suas vidas. Por mais inverossímil que possa parecer, as pessoas têm seus impulsos.

Passaram a se encontrar quinzenalmente, por quase um ano. Ele tinha sido promovido, o salário havia aumentado um tanto, podia se dar ao luxo de pagar motel, pelo menos no início. Só que nem tudo continua como deveria. Os filhos, em seis meses, já começam a dar o triplo de despesas. A vida e as responsabilidades reais começaram a pesar. A esposa não estava indo bem no trabalho e começava a desconfiar de que o marido não andava administrando com competência as finanças do lar.

O sexo com o antigo amor do passado era bom, mas, para ele, todo sexo era bom, desde que acontecesse. Em menos de seis meses, Lucileia perdeu o encanto da adolescência e ele começou a pensar demais para um homem como ele. Ela começou a insinuar coisas, queria resolver aquela situação.

Foi então que ele se deu conta de que ela não era realmente aquilo tudo que buscava. Agora, quando conversavam, ela mais parecia com a própria esposa. Não era mais aquela que tanto buscava em seus sonhos românticos de homem-adolescente. Ela não dizia coisas interessantes. Aliás, os diálogos do início, ele logo descobriu, não era diálogo entre ele agora e seu antes eterno grande amor. Tratava-se de diálogo resgatado, memória, deliciosa memória. Quando tudo já tinha sido relembrado, não havia muito mais o que conversar.

Onde estaria aquela pessoa que não concordasse com ele o tempo todo, que o fizesse se sentir completamente idiota, ao ouvi-lo proclamar que todo homem tinha um preço? Que risse dele zombeteira, quando ele se esquecesse de ligar a hidromassagem e estranhasse que não havia espuma na banheira? Que olhasse com desejo para sua barriga de homem acomodadamente casado, olhos ardentes, tarados, enquanto ele, nu, tentasse tirar a rolha da garrafa de vinho, pois ela pensaria em tudo, menos em levar um saca-rolha. Ao mesmo tempo, aquela mulher de inteligência maliciosa, que o fazia se sentir um homem também inteligente? Uma mulher que realmente não o quisesse, pois teria muitos outros; mulher com boca de veludo, mãos ágeis e experientes. Mulher que lhe desse a certeza de que era um deus na performance no sexo e que não ameaçasse sua estabilidade social. Aquela que nada queria saber de sua família, de seus filhos, mas que ao mesmo tempo já sabia de tudo? A mulher que nunca veria envelhecer, pois não terminariam a vida juntos; ela logo trataria de sumir, assim que sentisse não mais poder ajoelhar, abaixar suas calças e oferecer-lhe sensações incríveis. Sílfide independente, com casa própria, mas sem a arrogância dos grã-finos. Impulsiva e tão mulher, porque era aquela mulher que existia somente para a missão de alegrar sua vida tão igual. Não existia essa mulher, concluiu pesaroso, enquanto Lucileia falava do aumento absurdo do plano de saúde das crianças.

A esposa nunca se lembrava de ter ouvido falar que a Igreja Católica poderia ser uma instituição duvidosa. Esse mundo de reflexões não fazia parte de sua vida. Mas o fazia homem seguro, encaixado. Assistia às vezes aos noticiários da Rede Record e, vez ou outra, reproduzia algum discurso pronto dos apresentadores do jornal das sete, o que dava bem a impressão de que não era estúpida. Gostava de se vestir de maneira que achava sexy, roupas coladas, muitas vezes bem menores do que ela, mas sexy; ele gostava e isso era o suficiente. Cuidava bem das crianças. Pertenciam ao mesmo quadrado, e ali ele decidiu ficar.

Começou a não mais responder às cartas de Lucileia, resolveu que havia coisas que tinham de ser deixadas no passado, sentiu-se sábio e maduro com essa decisão. Ela provavelmente também resolveu se voltar para as filhas e para a família, o que lhe deu grande alívio.

Quando acordava, já nem tinha certeza se o reencontro com ela havia mesmo acontecido ou se tinha sido um sonho, uma invenção de sua cabeça, como aquela mulher que não existia. Mas a curiosidade não havia mais e ele se aquietou por um tempo.

Olhava para o lado e, seguro, confortado, via a esposa ali, dormindo quase com a boca aberta. As crianças já bagunçavam na sala, com a TV no último volume.

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O xixi de Catarina.

Sempre um sufoco segurar. Desde pequena de ainda desenhar em vez de escrever, o médico da família já dizia que era problema congênito, palavra difícil demais para se entender de uma só vez. Com o tempo melhoraria, mas nunca seria bom segurar demais, porque certamente acabava em infecção urinária. Sempre que possível, era bom não segurar. Mas não havia de ser grande preocupação, conforme crescesse e virasse moça: a medicina avançava a cada dia para fazer os seres humanos viverem mais e melhor. A longevidade e a qualidade de vida não eram mais coisas do passado. Vamos acompanhar a evolução, tudo dará certo – disse o médico da família, alegre demais para ser um médico.

A linda menina Catarina, pele de anjo celestial e olhos de bola de gude, ao ver aquele homem de branco falar, começou a se sentir uma pessoa que não passava de uma pesquisa. Havia diversas preocupações em sua cabeça, uma vez que o médico da família não necessariamente podia exatamente saber o que significava ir à escola em plena década de 90: havia professoras que não deixavam ir ao banheiro no horário da aula, pois estava praticamente decidido que era enrolação de alunas e alunos que queriam fugir apenas para dar aquele passeio pelos corredores. Era consenso entre os docentes, coordenadores e direção: passar pelas portas das salas dos estudantes mais velhos, para dar uma olhadinha nos moços bonitos, para elas era certamente uma opção muito mais interessante do que resolver as equações de segundo grau com a fórmula de báscara.

Mas a pequena e indefesa Catarina só foi descobrir os meninos algum tempo depois, bem depois inclusive daquela fase difícil da evolução da medicina e, diga-se de passagem, quando já não era mais tão pequena, nem indefesa. Era daquelas que gostava de estudar e tirar notas excelentes.

É nisso que dá quando a gente não quer mentir, perde toda a credibilidade, já pensava a incrível inteligência da menina. Como iria resolver aquela situação tão desagradável, só vendo para crer, e ela passou por maus bocados.

No início, decidiu dar um voto de confiança à condição cristã da professora. Como adulta experiente, ela deveria saber que Catarina não queria passear. Deveria saber que sua necessidade era verdadeira, genuína. Mas não. Para ela, adivinhava já a pequena Catarina, as caretas de dor na bexiga, dor que da bexiga subia para os olhos, era encenação. Sem mencionar a humilhante situação em público de levar da professora aquele sonoro “nada disso, mocinha”, acompanhado de uma cara de quem come fígado de crianças. Essa professora, no século XXI, estaria em maus lençóis.

Desta feita, a pequena Catarina decidiu se conformar e resolver aquilo da maneira que sabia fazer uma garota que não queria chamar a atenção, pois já chamava demais apenas por pensar mais e melhor que muita gente: aos poucos e sempre. Sua mãe já tinha pedido à professora que tivesse certa condescendência, explicou o problema congênito, mas talvez naquela época aquela professora também não entendesse nada de medicina. Simplesmente ignorou tudo.  Então Catarina arrumou uma pequena toalha de rosto, grande o bastante para impedir que ela molhasse a carteira e que os outros alunos – impiedosos – notassem o problema congênito que no futuro tinha tudo para se resolver com os avanços da medicina.

Como era tenso soltar o xixi aos poucos na toalhinha, resolver as equações com a fórmula de báscara e ao mesmo tempo se certificar de que ninguém percebia procedimentos tão delicados. De verdade, eram duas toalhinhas: uma para antes do intervalo, outra para depois. No intervalo, Catarina lavava a toalhinha usada, punha-a no saquinho plástico de supermercado e já preparava a outra, dobrando-a cuidadosamente de forma que ficasse invisível por dentro das roupas íntimas. Já tinha as implicações e complicações da menarca, antes mesmo de ter conhecido a menarca.

Entretanto, uma das coisas mais difíceis dessa vida é que nem sempre o que os olhos não veem o nariz não sente. Logo os impiedosos comuns, que não tinham nenhum problema congênito, começaram a perceber as manobras da menina. Primeiro o cheiro constante de urina na sala de aula. Depois, os modos esquivos e assustados sempre que alguém se aproximava justo na hora em que ela estava aliviando de forma compulsória a bexiga e a dor.

Foi muito falatório pelos corredores; os meninos davam risada, quando ela passava, as meninas cochichavam. Todos a evitavam. Difícil para aquelas criaturas de deus entenderem que aquilo não era o fim do mundo, mas apenas questão de a medicina avançar.

Catarina tentava fingir que não dava a mínima importância, mas sofria. Passou bom tempo da infância assim calada, triste como passarinho morrendo de fome. As notas começaram a oscilar, os cochichos, risadas e agressões verbais – daquelas que crianças sabem fazer bem – às vezes voltavam nos pesadelos que tinha quase todas as noites. Aquelas coisas que muitas pessoas contam: sonhar que saiu com o par do sapato trocado, descalço, até mesmo sem roupa. Mas no fundo, no fundo, ela preferia mesmo continuar aliviando a dor, a ter que aguentá-la até a hora do intervalo. De qualquer maneira, era um beco sem saída.

A medicina avançou um tanto em termos de sanar os males do corpo e da alma. Mas Catarina avançou muito mais do que ela: virou moça e, como não podia deixar de ser, logo depois já era mulher; e com toda mulher feito Catarina, nem a medicina pode.

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SOUZA F. – DROGADO E PROSTITUÍDO.

Descrição de um mamífero exótico, o urso panda: gorducho e muito pálido, loiro de tudo, geralmente usando terno escuro em cima de camisa branca, deixando só o peito estufado à mostra. Num evento de negócios, chegaram a confundi-lo com o segurança, por causa do uniforme. Para completar o perfil do animal exótico e em vias de extinção, ponha-lhe minúsculos e desproporcionais óculos de lentes escuras com armação redonda contornando os olhos verdes e pequenos, o que acentuava as grandes bochechas. O sotaque sulino dá o toque de originalidade nessa curiosa criatura. A índole preguiçosa e sossegada é a única coisa que não tem em comum com o panda original.

Eis o Souza.

A digníssima esposa, Carla Maria, dormia sozinha. Souza precisava trabalhar, apesar de o relógio marcar três horas da madrugada. Até tentava dormir de quando em quando, mas sentia-se mal não trabalhando. Vícios, vários outros: fumava, bebia muita cerveja, comia compulsivamente (crianças indefesas com hambúrgueres ou doces na mão que se cuidassem). Ainda assim, o trabalho era o pior de todos. Nunca procurou se tratar do mal porque não admitia estar doente, como todo viciado que se preze. Enfrentar desafios capitalistas como administrar pessoas, encontrar soluções, analisar tabelas ou operar negociatas, ao Souza assemelhava-se a obter orgasmos múltiplos. Em seu terceiro casamento, encontrara finalmente a mulher ideal. Aquela que compreendia suas compulsões insanas e não o julgava. Carla Maria contentava-se em gastar seu dinheiro, que não era pouco e a acompanhá-lo nas festas. Abandonou a profissão de psicóloga para dedicar-se a casa, ao marido e à filha de quatro anos de idade, fruto sublime de união tão harmoniosa.

Ultimamente andava inquieto, acabava de estabilizar as finanças de uma grande indústria de papel e tudo se tornava monótono. Até que chegou um novo convite, pois sua fama de grande empreendedor já era conhecida no mundo dos negócios. Mudaram-se então para o sudeste ao encontro de mais um desafio dos bons: salvar da bancarrota uma fábrica de tecidos de uma cidade do interior. Era mais vilarejo que cresceu em função da Gruber Tecidos Ltda.

Nem hotel tem nessa merda, tu vissi? Foi a primeira observação que fez quando chegou ao lugar, numa visita de reconhecimento e últimos acertos, acompanhado de seu assessor Diogo, secretário e braço direito havia anos. Duas semanas depois, comprou uma casa nova na cidade vizinha, pois lá existiam pizzarias. Trouxe a mulher, a filha e o casal de periquitos. A antiga equipe também, principalmente Isaura. Moreninha com gênio de artista que possuía encantos indecifráveis ao Souza. O peixe ornamental de Carla Maria, Souza jogou com enfeites marítimos e tudo na privada. Entregou o aquário vazio para o rapaz que embrulhava a mudança, pedindo segredo. Seria uma chateação trazer o bicho tendo que tomar cuidado de não deixar a água vazar. Quando a mulher se lembrou do peixe, o Souza já tinha providenciado outra criatura quase igual. Mas que engraçado, parece que está mais azul… Vai ver está enjoado da viagem, Carla Maria.

Chegou à fábrica de tecidos de Renatinho, neto do fundador Renato Borges de Almeida Gruber, aterrorizando todos os funcionários e colaboradores. Mas isso foi só no início. Difícil negar, o Souza transpirava carisma. Famoso por seu espírito entusiasmado e maneiras originais no lidar com as pessoas, logo conquistou a todos. As meninas, em duas semanas, já o amavam. Uma figura, esse homem, diziam sorrindo. Inspirava paixões e admiração em todos os que para a Gruber Tecidos trabalhavam. Seu método de persuasão era brasileiramente norte americano: trabalho, engajamento, aperfeiçoamento profissional diário, jornadas de até dezoito horas, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Dedicação espontânea. Ninguém mais andava devagar pelos corredores. O ritmo frenético do Souza era contagiante. A administração começou a fervilhar tal qual a Bolsa de Valores de Nova York.  Em troca, promessas de que, assim que a fábrica saísse do vermelho, todos acabariam ganhando. Vagas promessas, a bem da verdade, mas transmitia tanta confiança que a maioria sentia-se patriota e orgulhoso por não ter sido demitido. Sentiam-se no primeiro mundo dos negócios. O homem sabia bem o que valorizar em cada uma daquelas gentes e conseguia o máximo da dedicação deles. Ao assessor, Diogo, segredava : Tu vissi aquela baranga da secretária do Renatinho? Criatura das mais esquisitas, chê, vou ter que ensinar a mocreia a pintar o cabelo direito, oxigenada dos infernos!

Diogo sorria, passava o lenço na testa e no pescoço. Só achava que naquele lugar fazia muito calor.Lá no sul não faz tanto calor assim. E se faz tem ar condicionado, bah …

Isaura era a menina dos olhos de Souza. Trabalhadeira, esforçada, com superior incompleto. Artistas como ela viviam no mundo da lua, era verdade, mas tinha talento sim. Muito bom gosto. Arrumaria um departamento para ela cuidar.

Isaura também amava o Souza. Ah, você é um pai pra mim… Morena, tu vais crescer, quero te dar todas as oportunidades que tu mereces, entendessi? Vou entregar o departamento pra ti, sei que vais dar conta. Vais criar tuas filhas com dignidade, sem depender daquele bosta do teu ex-marido. Naquele dia, Isaura ficou tão sensibilizada e o Souza tão empolgado, que o clima se intensificou. Cerveja às tantas, uísques a mais e tudo ficava aquecidamente delicioso. Isaurinha só tomava tequila. Terminaram a noite entre quatro paredes escuras, dizendo assim: Ai, Souza, você demora muito…  Calma, Isaurinha, meu amor…

Ficou muito carinho entre os dois. Não se ficou sabendo se voltaram a fazer serões, mas os comentários sempre circulavam pelos corredores. O Souza, porém, não se intimidava, protegia Isaurinha descaradamente. Exigia muito dela também. Quando via alguma coisa errada, explodia do seu jeitinho tipicamente meigo:

Porra, Morena, que puta bosta foi isso que tu fizessi?!

Isaurinha era o seu encanto, mas o trabalho vinha em primeiro lugar. Calma, Souza, deixa eu explicar? À puta que te pariu, porra, te falei que eu não queria assim, cacete! Manda fazer essa merda de novo, e rápido!

As pessoas ao redor, que presenciavam a cena, não se moviam num raio de mil quilômetros até que o grande vulto pavoroso do panda endiabrado saísse da sala. Muitas delas, bem no íntimo, sentiam mesmo era inveja. Ser xingado ou humilhado pelo Souza ao menos uma vez por semana significava possuir uma posição de destaque na empresa. Veja lá se ele bronqueia com qualquer um, só os mais chegados é que têm esse privilégio…

Isaurinha era um enigma. Ás vezes chorava, ás vezes dava de ombros dizendo: Ai, esse Souza é um baita cabeça dura mesmo! Deixa passar essa ira toda que depois eu me entendo com eleCerto dia aconteceu de ele, passando pela estrada – viajava muito – ver uma daquelas barracas de frutas. Sua compulsão por comida juntou-se à do consumismo. Levou para a fábrica uma caixa de mangas monstruosamente grandes. Entrou na sala de Isaurinha que trabalhava com mais duas assistentes. Sentou-se em frente à sua mesa e depositou a caixa nela. Isaura já ficou entusiasmada: que mangas bonitas, Souza, trouxe de presente pra mim? Ele sorriu de um jeito muito debochado. Abriu a caixa, catou uma manga e abriu a fruta com a mão. Depois levou aquela massa disforme à boca de modo sôfrego, parecendo um animal esfomeado. Lambuzava-se todo diante dos olhos atônitos dos presentes. Que é isso, Souza, disse a morena sorrindo meio nervosa, pega um prato e uma faca lá na cozinha! Ele grunhia com a boca lambuzada e cheia de fiapos. O suco escorria para dentro do colarinho de seu terno marrom. Comeu duas do mesmo modo. Depois se levantou e saiu da sala levando a caixa. Isaura disse indignada: que porcalhão! e ainda teve a pachorra de nem oferecer uminha sequer. Glutão.

Mas ele a elogiava também, principalmente em público. O desenvolvimento artístico era, sem dúvida, obra bem feita da morena. Comentários diversos sempre surgiam. Ela é boa, só falta ser um pouco mais organizada… Ah, a Isaurinha é muito legal… São amantes, só pode ser! Se fosse outra, o Souza já tinha dado com o pé na bunda! Ele sabe o que faz e quem é bom mesmo. Dizem que fez vários cursos nos esteits. Que diabo é isso? Unaited esteits ofi américa, ignorante!

O Souza revolucionou a pequena fábrica do interior. Investiu milhões em maquinaria estrangeira, em propagandas, modernizou todos os departamentos instalando microcomputadores, programas avançados. Sua visão era neoliberal e capitalista selvagem. Os concorrentes tremiam nas bases, a Gruber transformava-se. Modernizou também o modo de Renatinho se vestir. Nada de ternos sóbrios, deveria transmitir a imagem de rapaz dinâmico, empresário de visão aberta e futurista. Aquela timidez de caipira não combinava com o crescimento que pretendia. Insinuou até a adoção de acessórios mais modernos: um brinquinho bem discreto numa das orelhas, que é que tu acha?Ao que Renato desesperou: Tudo, menos isso! Até me esforço pra disfarçar meu sotaque de caipira, mas brinco não!

O Souza não insistiu. Seria demais exigir de Renatinho uma mudança tão brusca de comportamento. Chocaria também os mais velhos, os tradicionais conselheiros da família Gruber. Ainda não era hora disso. No início (sempre assim) demonstraram confiança, deram liberdade de ação, prometeram não interferir no processo, carta branca. Foi só a coisa melhorar um pouco e eles já começavam a questionar algumas decisões do homem que veio do sul, achavam que estava gastando muito dinheiro. Puta gentalha unha de fome esses velhos… Tem que investir, gente, tem que investir … – bufava sempre nas reuniões com os Conselheiros.

Abstinência.

Era feriado. Muitos feriados se passaram até aquele dia, mas o Souza passava por cima deles como uma jamanta desgovernada. Bah, que feriado que nada! E telefonava durante o dia inteiro para todos os que estivessem ao seu alcance. Cobrava números, vendas e dedicação. Porra, eu que sou eu não paro de trabalhar, cambada de vagabundo

Mas naquele, especificamente, havia prometido que se desligaria do trabalho. Prometera para a filha, pois Carla Maria tinha desistido há muito. Desde que voltara da última viagem de núpcias, nunca mais tivera férias, nem mesmo parava para descansar num domingo. Mesmo tentando, era um sofrimento. As costas começavam a doer, sentia calafrios, irritação. Ficava inquieto e na cabeça só rodavam os números, a procura de soluções, as tabelas. A boca ficava seca. Tinha pesadelos horríveis durante a noite. Por muito pouco não chegava a ter alucinações diante da abstinência: enxergava vultos de morcegos com dólares no bico esvoaçando em volta da cabeça loira. Vou te internar, doido varrido, tentava brincar sua digníssima Carla Maria. Mas a pequena filhinha era um de seus tesouros. E quando a menina olhou para ele daquele modo que as crianças bem sabem, querendo dizer: presta atenção em mim enquanto é tempo, papai, lembra-te de que provavelmente serei eu quem escolherá teu asilo... Então o Souza resolveu tirar aquele feriado para observar, pelo menos por quatro dias, a filha crescer. Foram para o sul visitar os avós, pais de Souza, que não viam fazia meses. Preferiram ir de carro a fim de observar a paisagem e ir parando nos restaurantes e parques espalhados ao longo do caminho. Serei o pai perfeito, pelo menos nesses quatro dias, pensava o Souza satisfeito. Em menos de dez horas chegavam à casa de Souza pai. Mataram saudades, o Souza dançou todas as músicas infantis da moda, até namorou um pouco Carla Maria. Parecia um homem normal, apenas muito branco e loiro.

Durou pouco a força de vontade. Então foi que começou o suplício, a tentação. O vício maldito começou a remoer-lhe a alma. Foi logo no segundo dia. Os sintomas começaram com formigamentos, tonturas, taquicardias, falta de ar. Preciso telefonar, preciso, só um telefonema bem pequenino, bufava baixinho o Souza. Será que a mocreia da Márcia conseguiu fazer aquele levantamento que pedi? Ai, meu Deus, preciso trabalhar um pouquinho…

Na mesa, jantar em família , o Souza nada falava, agia feito um animal enjaulado. Olhava para os lados procurando o telefone. Quando todos estivessem dormindo telefonaria para o Miguel para saber como andavam as vendas lá no norte… Ninguém perceberia, tinha certeza… Aquele era o único vício que não deixava vestígios: nada de cheiro, olhos vermelhos, língua enrolada… Mas cadê o maldito aparelho? Será que esconderam? Não consigo achar esse maldito telefone, chê…

Papai, papai, o que tem, papai ? Vamos, janta logo, quero ir ao parque…

Nunca pensei que tivesse uma filha tão chata, pensava ele olhando para a pequena que sorria. Acho que te faltam modos, guria, vou conversar com tua mãe sobre isso. Onde já se viu só pensar em brincar com essa idade, barbaridade… E ainda por cima não se coloca no lugar devido, fica me importunando, mas que parque coisa nenhuma!

Esfregou os olhos, tentando voltar a si. Preciso trabalhar, sem falta. Estou vareando das ideias, vou acabar fazendo besteira se não conseguir ao menos dar um telefonemazinho…

Papai! O Souza levantou-se da cadeira num repente. Andava de um lado para o outro. Cadê o telefone? Hein? O telefone, eu quero o telefone!

Carla Maria suspirou já conformada. Sabia que ia durar pouco… Não tinha mais dúvida nenhuma, era caso de internação.

Papai, você falou que não ia trabalhar, você prometeu… Carlinha, bufou ele de olhos esbugalhados, tira essa menina daqui, estou fora de mim, tira essa criatura daqui! Os pais de Souza observavam desconsolados, balançavam a cabeça adivinhando ser um caso perdido. O que fizeram de errado ao criar o guri? Sempre teve de tudo, nada faltou em sua educação. O Souza estava transformado. Não era o mesmo homem de há vinte e quatro horas atrás. Como o vício mudava as pessoas.

Então a dor no peito. Tudo rodou. Carla Maria nem se mexeu do lugar. Ninguém morre de abstinência. Ouvi dizer que preferem morrer de overdose, pensou cutucando as cutículas com os dentes. O Souza pai correu e logo voltou com o telefone na mão. Que Deus me perdoe, não posso ficar indiferente ao sofrimento de meu filho… Tome, filho, faz o que quiseres. Souza pegou o aparelho com olhos gulosos, abraçou, cheirou, beijou. Voltava a si. Olhou para a menina que estava carrancuda, rancorosa e culpando-o por ser tão fraco. Logo reagiu ao olhar dela. Disse, já discando para a secretária: não fiques assim, meu anjo, a gente te bota num terapeuta e quando tu cresceres, filha, vais me agradecer por poder te pagar as vaidades de adolescente, vissi ?

E o tão planejado feriado acabou assim.

Passaram-se alguns poucos anos e dizem que o Souza morreu comendo um cachorro quente numa esquina. O coração explodiu, quando apertava a bisnaga de mostarda.

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VOVÓ E O PAPAGAIO

Vovó Iara fumava sem tragar. Iniciou-se no vício incentivada pela irmã mais velha, que dizia ser relaxante observar a fumaça fazer desenhos no ar, imitando nuvens ou fantasmas de vários formatos. Vovó Iara fazia assim: puxava fundo e depois deixava aquela massa branca e inconsistente escapar pela boca semiaberta, pelo nariz e até pelos dos olhos semicerrados. Parecia que brincava de fazer bolhas de sabão.Pequenina. Não possuía muita bondade nos olhos e preferia ser um pouco ignorante e conservadora nos assuntos da sociedade. Tinha jeito de imigrante italiana. Mas falava baixo, muitas vezes ficava calada, observando, com certa censura, as atitudes dos netos malcriados. De vez em quando arriscava uma opinião, mas logo era bruscamente interrompida pela prepotência do marido. Vovô sempre foi mais informado e ativo, costumava ler o jornal todos os dias e comentava sobre os assuntos políticos e econômicos que tinha lido. Ele sempre dizia que aqueles corruptos do governo podiam todos morrer e implicava muito com vovó Iara, tudo que ela fazia o deixava zangado. Os comentários dela eram totalmente dispensáveis, e, a seu ver, as mulheres não precisavam se preocupar com isso. Dos sete filhos, somente os dois mais novos, únicos homens da prole, tiveram que fazer faculdade. Vovô fez questão.Quando ele morreu, vovó Iara engordou sete quilos. Largou corpo, relaxou, ficou mais sossegada. Morava com a filha solteira e uma das netas órfã de pai e mãe. Vovó Iara preocupava-se um pouco com a neta. A filha mais velha tinha morrido muito jovem, infecção hospitalar. Já era separada do marido que, por sua vez, nunca tinha se interessado pela menina. Compareceu ao enterro e depois nunca mais. Foi uma das piores dores que sentira, a morte da filha. Vovó Iara não tinha formado muitas opiniões em vida, mas de uma coisa ela tinha certeza: os pais deviam ser sempre enterrados pelos filhos, não o contrário. Mas aconteceu assim e a filha solteira ficou incumbida de terminar a criação da menina que, na ocasião da morte da mãe, contava doze anos. Neta difícil, mimada ao extremo por todos os tios. Pobrezinha, não tinha mais pai nem mãe, precisava de carinho. Amava animais. Quando o avô, avesso a cães dormindo no sofá e a gatos andando pela casa, morreu, a menina abriu as porteiras e inundou o lar de todos os bichos que era possível colocar numa casa. Vovó Iara bem que tentou manter a tradição e protestou no início, mas a neta logo impôs sua soberania. Afinal, já era maior de idade, trabalhava e sustentava os bichos sozinha. Não cuidava deles, isso era tarefa da tia, mas amava-os e, à noite, quando chegava, brincava com eles.Malcriada, pensava vovó Iara. Mas a indignação morria nos olhos revoltados. O silêncio era sua tradição mais profunda.

A filha e a neta não a deixavam mesmo falar. Faziam questão de deixar bem claro que era uma espécie de mobília ambulante e cada vez mais ia se tornando um incômodo. Brigavam com ela o tempo todo. Desse modo, vovó Iara começou a ficar tensa. Quanto mais medo sentia, mais coisas quebrava. Mas nem sempre se deixava dominar. Vingava-se secretamente delas através de artimanhas. O médico tinha-a proibido de fumar. À toa, pensava. Nem tragava, não era o fumo que estava entupindo suas veias e sim a filha e a neta. Então fumava escondida no banheiro. Quando as duas resolviam sair e não a convidavam, punha-se a lavar a louça, coisa que a filha tinha-a proibido de fazer. Ainda acabo sem copos, ouvia-a comentar com os outros, sem falar que depois tenho que lavar tudo de novo!  Pois sim. Lavava a louça e quase conseguia esvaziar a pia sem quebrar nada. Depois olhava para aquilo tudo orgulhosa, resultado admirável para uma senhora de oitenta anos.  Os olhos já não eram tão bons, mas conseguia enxergar se houvesse alguma peça sem ter sido bem lavada. Noutro dia viu que haviam restado resquícios de molho de tomate numa colher. Mas como a pia já estava sequinha, do jeito que devia, não quis lavar de novo. Pensou durante algum tempo diante daquele objeto, imóvel. Olhou para o chão, sentindo um par de olhos que a observavam. Era o poodle, aquisição mais recente da neta. Chutou o animal com gosto, descontando todas as vezes em que aquele bicho sujo tinha se deitado no sofá sem ela poder protestar . Depois lambeu demoradamente o resto do molho de tomate e devolveu a colher ao escorredor de  louças. Sorriu satisfeita e pensou: malcriadas.

Às vezes a filha deixava-a varrer o quintal. Nos fundos era fácil, pois só havia folhas secas, exceto quando ventava muito. A parte da frente não podia porque um dia se distraiu, deixou o portão aberto e um dos cães preferidos da neta escapou. Foi um escândalo para vizinhança nenhuma botar defeito. Viu o rosto dela se transformar num pimentão muito vermelho e crescer diante do próprio nariz. Por um instante pensou que iria apanhar e assustou-se. Depois foi tomada por uma coragem e pensou encarando aquele monte histérico: pode vir, levanta a mão para mim que é tudo o que eu preciso para te dar aquele cascudo que você está precisando, sua malcriada! Mas a moça fechou os punhos, bufou arremessando impropérios combinados com gestos de desespero e deu-lhe as costas para sair e procurar o bicho. Logo o encontrou andando na rua de baixo. Vovó Iara só observou a neta se arrastando com aquela coisa peluda no colo, muito vermelha mesmo e suando de cansaço. Chegou a se sentir um pouco culpada, mas foi muito pouco mesmo. O pior de tudo foi a proibição de varrer o quintal da frente. Daqui a pouco só vão permitir que eu fique sentada na frente da televisão, como se eu já tivesse morrido. Tudo por causa de um cachorro fedorento…

Quando chegou o papagaio, vovó Iara olhou para ele com desconfiança. Depois suspirou, tentando demonstrar com esse gesto que não tinha gostado nada daquilo. Mas nem repararam no seu descontentamento, o papagaio era o novo astro do lar. A neta já chegava do trabalho chamando o Gil, nome escolhido cuidadosamente por causa daquele cantor. Era ainda filhote, disseram que assim ficava mais fácil aprender a falar. Com efeito, em menos de um mês já cantava músicas sertanejas e arriscava alguns pagodes engasgados. Vovó Iara irritava-se, principalmente na hora do almoço, pois o bicho desandava a gritar até que dessem algo para ele comer. Por outro lado, preferia o papagaio ao poodle. Pelo menos o Gil não se deitava no sofá e não a olhava com aquele jeito zombeteiro do cão. Sem falar que, quando ficava sozinha em casa, não perdia a chance de dizer ao poodle: bem feito, ela se esqueceu de você, fedorento! Estava vingada.

Durante muito tempo a neta dedicou-se quase que exclusivamente ao papagaio. Vovó Iara ficava observando a moça com ele nos ombros: carinhos, beijos no bico, afagos e palavras doces. E ficava especulando consigo mesma que a neta precisava era arrumar um namorado. Sorria. Então a neta percebia e, chegando perto dela, cantarolava: olhe, Gil, quer dar um beijinho na vovó? Mas vovó Iara protestava. Não gostava de bichos. Gostava era de ver a neta assim carinhosa e de pensar que ela precisava de um namorado. E principalmente de ver a cara de bobo do cachorro correndo de um lado para o outro, tentando chamar a atenção da dona, que agora era toda papagaio.

Num Sábado de tarde, vovó Iara ouviu a neta comentar que a corrente estava frouxa e chamou a tia para irem até a rua de cima para comprar uma corrente nova. Mamãe, já voltamos. Não abra a porta para ninguém estranho, ouviu? Vovó Iara não se deu ao trabalho de responder. Mais um pouco e a filha diria: não se mexa, fique aí quietinha feito uma múmia até voltarmos, hein?Malcriadas.

Aproveitou e fumou um cigarro. Tinha um maço escondido no fundo da gaveta, sempre deixava umas reservas, conseguia comprar pacotes às vezes com a mesada que ganhava dos filhos. Preferia comprar cigarros a comprar roupa nova, só porque estava proibida de fumar.

Sossegada, assistia à televisão, quando ouviu um bater de asas. Olhou para a direção de onde vinha o barulho e só conseguiu ver pequenas penas espalhadas pelo ar. O poleiro estava vazio. Arregalou os olhos e começou a procurar o Gil. Foi encontrá-lo na cozinha, levantando as asas em frente ao poodle. Os dois estavam para começar uma luta que seria, no mínimo, um desastre para o papagaio. O cão já estava se sentindo rejeitado pela dona, e o culpado era Gil. Uma só dentada e seria fatal. Vovó Iara então pegou a vassoura e espantou o cão. Depois agarrou o papagaio com as duas mãos. O bicho debatia-se desesperado, vovó Iara conseguia sentir o coração disparado do Gil. Ai, meu Deus, como é que eu faço agora? Gil começava a bicar-lhe as mãos com violência, mas ela não largava.  O poodle estava agora em seus pés, queria o papagaio como se ele fosse alguma guloseima irresistível. Rodeava as pernas dela e vovó Iara procurava espantá-lo com ameaças: sai daqui, nojento, ou eu te chuto pra longe…

E o papagaio bicava suas mãos. Vovó Iara, paralisada, olhava ao redor. Procurava encontrar nos móveis, no teto, em cada mobília da casa, uma solução. Sentou-se num dos sofás, ainda com Gil nas mãos, sangrando-as com seu impiedoso bico preto. Doía, mas aquela situação doía mais do que as ferroadas do bicho. Precisava fazer alguma coisa, mas o pavor de tentar a dominava e paralisava todos os músculos de seu corpinho encurvado. Não se sentia capaz de tentar. Qualquer movimento mais fraco da parte dela, ele escaparia, tinha certeza. Voaria para longe, ou o poodle o comeria. E ficou imaginando a neta chegar, dando de cara com as poucas penas verdes que restariam espalhadas pelo assoalho da sala. A boca do poodle suja de sangue, um grito de horror. Vovó Iara seria julgada e condenada para sempre, meu Deus, para sempre…Gil ficou imóvel por alguns segundos, ofegante. As íris dos pequenos olhos redondos aumentavam e diminuíam tensos, raivosos. Havia manchas de sangue em suas penas.  Logo as ferroadas recomeçavam, primeiro devagar e depois cada vez mais violentamente. Vovó Iara permanecia imóvel, observando até com certa dignidade. Doía, mas, como tinha sido toda a sua vida, resignava-se. Remetia-se a tempos distantes e descobria que aquela situação parecia bem familiar: aquela imobilidade, motivada pelo medo de tentar, era grande companheira de jornada. Sempre sangrou. Mas ficar paralisada era melhor que mover-se e cometer erros sem volta. Esperar que alguém chegasse e resolvesse o problema era a melhor coisa que tinha a fazer. Sentia-se muito capaz de aguentar a dor das bicadas de Gil, mas mover-se e errar seria a morte. Subitamente sentiu tanto cansaço, que começou a chorar baixinho, com o rosto contorcido de dor. Tudo era discreto naquele choro manso, profundo. Odiou a neta, a filha solteira, os outros filhos que ali não estavam. Olhava para Gil em suas mãos, uma sombra enevoada através das lágrimas de ódio. Sentiu dó. Não sabia se sentia pena do papagaio desesperado, ou de si mesma, estava um pouco confusa. Nunca tinha se dado conta de tanta solidão. Sua vida toda, rodeada de filhos, maridos e parentes e sempre foi a mais sozinha das criaturas.

Mas logo achou melhor voltar a sentir dó do papagaio mesmo. E resolveu ir até o fim, queria chocar muitas pessoas a fim de que elas prestassem mais atenção em tudo. Fique calmo, Gil. Logo elas chegam. Veja se bica mais com menos maldade… O poodle já havia desistido e dormia entediado aos pés da imóvel vovó Iara.

Com alguns curativos nas duas mãos, varria o quintal dos fundos. A neta já tinha saído, tinha que trabalhar para poder comprar a comida de seus bichos e pagar o veterinário mensalmente. Vovó Iara sorriu, reprovando aquela palhaçada. Minha neta precisa de um namorado. Sempre achou isso, apesar de que, ultimamente começava a mudar de ideia. Talvez não adiantasse. Muitas vezes não era o suficiente para fazê-la tentar, sem medo. Não seria dessa vez que a continuidade das coisas seria quebrada, mas quando? Riu, bem discretamente, quase uma brisa. Em certas ocasiões era conveniente ser invisível, ainda mais quando exigiam opiniões, cobravam atitudes. Que se danem, pensava a velhinha serena. Não se importava muito com opiniões. Num mundo pequeno, as opiniões eram porcarias que, pelo menos para ela, de nada adiantavam.

Naquele dia ventava, as folhas voltavam para o lugar de onde tinham sido varridas, teimosas e irritantes. O Gil, sempre nervoso, agora possuía uma corrente nova e cantarolava no quintal da frente.

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DUDA

Quando o reconheceu, ao passar por ele no corredor do colégio, a cena da infância surgiu rapidamente: no pátio de uma escola, lá longe, ele chorava muito. Estavam sobre o palco pequeno; o pai, de gravata e casaco em punho, colocava a mão em seus ombros. O menino o repudiava, nervoso e vermelho, sentado sobre a mala grande, malas dessas que crianças em idade pré-escolar costumavam carregar. Discutiam, o menino articulava a boca como se berrasse e o pai tentava apaziguar toda aquela fúria. Não conseguia escutar o que diziam, pois era hora de recreio e todas as outras crianças pulavam e gritavam entre a espectadora e os protagonistas de cena tão dramática. Ela nunca soube o motivo daquela tragédia, mas imaginou muitos mesmo. Já existiam televisores na época e representações trágicas e românticas sempre lhe chamaram a atenção. Os pais vão se separar. A mãe dele está com uma doença incurável, talvez tenha até morrido… Foi a única imagem que lhe ocorreu na hora do rápido reencontro, pois muito tempo já havia corrido desde então. Mudara de escola, crescera em outra cidade e seriam meros desconhecidos, não fosse por essa única cena.

Talita, a amiga comum, chegou com ele e os reapresentou. Tinham estudado na mesma escola, nunca tinham sido amigos íntimos, apenas eram obrigados a conviver, mas não puderam evitar o novo relacionamento naquele novo lugar, onde ninguém conhecia ninguém. Um rosto familiar significava salvação para ambos. Duda, essa é Marta, ela vai participar do nosso grupo de trabalho de ciências, disse Talita. Agora estamos quase conseguindo montar um grupo para podermos fazer o trabalho, hein? Duda deu um meio sorriso e Marta achou aquilo antipático. Assim, mais de perto e sem movimento, conseguiu visualizar melhor o passado e analisou tudo. Percebeu que ela mesma havia amadurecido, estava quase adulta. Duda continuava com os mesmos traços de menino. Possuía altura e músculos de rapaz, mas o rosto continuava fresco, os cabelos loiros e brilhosos, a pele limpa e branca, tão branca, limpa e sem pecados, que dava até vontade de chorar. Encontrava-se em frente a um anjo. Um anjo antipático, pensou ela ao perceber que Duda sequer a olhou nos olhos para cumprimentá-la. Sou uma mendiga diante de um querubim. Minha pele leprosa causa asco e dó, não posso alcançar toda essa majestade… Cutucou uma espinha encravada no queixo que a incomodava havia semanas. Sentiu uma imensa vontade de tomar banho.

Nos primeiros encontros, considerou que o julgamento tinha sido precoce. Ele possuía senso de humor apurado e uma inteligência superior. Resolvia questões de química em nove segundos. Fazia graças e Marta sorria. Até que não era tão antipático, talvez fosse apenas tímido. À medida que conviviam, mais ele se soltava e deixava transparecer toda a magnitude de gestos nobres, ideais sublimes e a sensibilidade de artista. Tocava violino e desejava salvar o país da pobreza. Marta descobriu tudo isso a dois dias das férias. Ambos estavam perdidos à procura das notas e se encontraram pelos corredores. Ficaram conversando durante horas, de pé, encostados nas paredes frias. Quando se despediram, desejaram boas férias um ao outro e ambos sabiam que dali nascera o pacto.

No retorno, puseram em prática o acordo sem vozes nem assinaturas. Se um fosse faltar, o aviso se fazia num comentário avulso, sem comprometimento, mas um aviso; chegavam à mesma hora, tomavam lanche juntos e revezavam despesas; esperavam um ao outro, caso um deles se atrasasse. Jamais seria tudo tão perfeito e sincronizado se combinassem antes. Trocavam confidências familiares. Meus pais são separados, dizia ele. Meu pai sofre de esquizofrenia leve, segredava ela. Sou muito inseguro, mas um dia vou viajar para a Malásia. Você sabia que escrevo poemas? Mas nunca mostrei a ninguém, acho que nem vou mostrar. Minha paixão é a música. Tentei compor uma vez, mas foi horrível. Desisti para sempre.

Marta sofria, no entanto. Todas as confidências morriam no portão do colégio, não ultrapassavam aqueles portões para ganharem o mundo que era deles. Mas ela sabia que fazia parte do pacto, jamais deveriam transpor a linha de perigo. Procurava viver intensamente sem pensar, mas às vezes pegava-se questionando o acordo surdo e mudo que fizeram. Por quê? Por que essa distância, se eram tão iguais? Parecia conhecer a família dele há anos, mas nunca os vira. A mãe professora, sabia ser elegante, sensível e bonita. O pai, enérgico e conservador, mas fraco e carinhoso. O irmão mais novo revoltado e cheio de tatuagens. Pessoas que imaginava nitidamente, num álbum amarelado de fotografias. Quanto mais conversavam, mais sentiam que haviam sido separados levianamente, em algum momento inexistente do mundo. Eram da mesma árvore, da mesma mãe e do mesmo sentido. O olhar de Duda era terno, mas dúbio. Sempre aquela vontade de chorar.

Um dia Talita, inocente e movida apenas pela curiosidade comum, sussurrou: Marta, você acha que o Duda gosta de meninas? O choque foi ínfimo, mas a cabeça começou a doer. O vazio dentro do peito ecoava um susto triste, porque aquela pergunta era uma agressão descabida. Conseguiu sorrir: por que você acha, Talita? A amiga começou a se sentir mal e sem graça. Mas continuou: comentários da outra escola. Marta já havia recuperado o controle. Sorriu, reprovando a maldade alheia: que absurdo… não, acho que não. O Duda só é… muito menino. Moleque, sabe? E depois, o que é que toda essa gente tem a ver com a vida dele? Talita fez um gesto de desistência cansada: é, é isso mesmo. Só porque o menino é fino e sensível, todo mundo fica achando coisas. Chato pra burro. Marta ainda arrematou: pra mim não faz diferença nenhuma. Eu gosto dele, simples assim.

Deu-se conta de que falava a mais pura verdade. Não se sentia superior, nem agradecida, mas gostava dele. Talvez se Duda não gostasse mesmo de mulheres, ela poderia não significar uma mulher para ele. Para ela, Duda não era irmão, nem amigo, nem homem. E depois daquela semente semeada ao acaso pela amiga xereta, começou a sentir mais necessidade de tê-lo sempre perto, de protegê-lo do mundo. Morreria se não conseguisse. Dez minutos de atraso e sentia o pavor de que ele não chegasse. Duda, por sua vez, agia do mesmo modo. O pacto continuava, mais forte do que nunca. Chegavam a sentir as mesmas coisas. Comentavam programas de televisão e músicas que tinham escutado na mesma hora, sem nenhum acordo prévio. As tristezas de ambos eram exatas e contagiavam-se mutuamente das alegrias. Duda sentia ciúmes de Marta, mostrava-se irritado quando chegava e a via conversando com outra pessoa qualquer. Ela, a fim de cumprir honradamente o compromisso, logo se desfazia da pessoa e ia ao encontro dele. Muitas vezes não precisavam sequer emitir sons. Pelos olhares já sabiam o que se passava com o outro, significavam um só pensamento. Ele sempre lhe dava esperanças: nossa, sempre que falo dessa sinfonia deVerdi, ninguém reconhece. Você é a única, além do meu professor de violino, que já a ouviu, sabia? Ela sabia. E aquilo só poderia significar que Duda sem Marta seria o mesmo que Marta sem Duda.

Mas raízes cresceram depois daquela semeadura maldosa. Fazia-a observar mais atentamente e sem nenhum desejo verdadeiro aquela metade tão dela e, ao mesmo tempo, tão fora de alcance. Toda a convivência e amor resumiam-se naqueles corredores e nas salas de aula. Sequer trocavam telefonemas. Incomodavam, como incomodavam os sintomas da ferida que havia sido feita. Duda sugava-lhe o amor perfeito e sem retorno, quase santo, e depois lhe fechava à frente uma muralha de isolamento. Marta tentou de tudo para insinuar um passeio, um cinema, coisas que amigos fazem. Duda parecia não compreender. Nada daquilo o atingia, como poderia um cotidiano mundano e normal atingir um anjo? Talvez fosse de outro planeta, não seria possível alguém ser dotado de normalidade, possuindo aquelas atitudes tão hermeticamente misteriosas. A “cara metade” de Marta, coisa que as moças dessa idade tanto esperam, era um completo enigma.

Um dia o pacto pareceu querer desmoronar: a tampa da caneta, com a qual Duda brincava na aula de história, voou para longe. Caiu no pé de um garoto que se sentava lá na frente. Marta observou, com certo abatimento, os dois trocarem olhares. O garoto bonito jogou de volta a tampa da caneta para as mãos de Duda, que agradeceu com um sinal. Impressão, ou havia inquietação nos gestos dele? A pele branca de querubim avermelhou-se, a respiração estava ofegante. Marta nunca havia reparado naquele garoto, a turma era grande, tornava-se quase que impossível conhecer a classe toda. Mas dali em diante, passou a reparar mais nele, com um misto de compreensão e profundo amor. Como gostaria de compreender o anjo querubim que adorava com tamanho respeito. Muitas vezes mirava-se no espelho e sentia que estava envelhecendo. Ela murchava e Duda resplandecia. E agitava-se toda vez que o garoto da tampa da caneta chegava. Nunca viu os dois conversando, mas a desconfiança de algo existente naquela outra comunicação de ambos deixava-a respirando com dificuldade e dominada por um cansaço nada comum para menina tão jovem. Misturavam-se dentro dela ciúme e despeito doloridos, aquela sensação de posse que sentiu muitas vezes em relação às amigas do jardim da infância. Ele vai me trocar por outro amiguinho, ah, deus, como vou ser infeliz.

Quando tentava concluir e se conformar de que jamais constituiria uma família perfeita com a alma gêmea, pegava-se sentindo ciúmes de Duda em relação a outra garota. Uma menina com cara de boneca que ele introduziu no grupo de trabalho. Fez muita questão, o Duda, e a garota insinuava-se grotescamente para cima dele. Marta procurava defender-se de maneira perversa: sua idiota, ele não gosta de garotas… E chorava durante todo o resto do dia. Depois, aliviada percebia que a boneca também era desse mundo, portanto jamais chegaria mais perto, pelo menos mais perto do que ela mesma conseguira.

As compensações aconteciam, por isso Marta conseguia sobreviver. Os momentos de diálogos continuavam. Aprofundavam-se nas coincidências de sentimentos, medos e vontades de conquistar o mundo, mas nunca neles mesmos. Todos os dias, como um credo, Marta dizia a si mesma que perguntaria coisas mais íntimas. Mas faltava-lhe coragem, pois sabia que poderia perdê-lo para sempre. Contudo, algo deveria ser feito, nada podia continuar assim. Aquilo não era vida que se prezasse. Mas as palavras morriam antes de se formarem, outros assuntos desviavam sua determinação. E se o agarrasse pelo pescoço e perguntasse na chincha: o que é que acontece entre você e aquele garoto estúpido? Não. Ao imaginar Duda fugindo desesperado, ela desejaria tomar banho, esfregar-se para limpar o corpo e a mente daquele ato ignorante. Sim, porque era assim que se sentiria, se tentasse violar aquilo que Duda representava. Seria como quebrar a única coisa que fazia sentido no mundo. Sentiu que era tosca, e o professor, ali na frente, alheio ao drama fatal que ela vivia, continuava falando sobre o sistema digestório. Súbito, o garoto da tampa da caneta levantou-se para sair da aula. Marta observou apenas com o movimento das pupilas, e percebeu Duda levantar acabeça do caderno e seguir o menino até ele fechar a porta atrás de si com a mochila de materiais nas costas. Marta fingiu estar entendendo as funções da pepsina e tripsina, mas sua atenção estava fixa nos gestos de Duda: lentamente e de modo mais discreto possível, guardava o caderno e a caneta. Não, meu deus, diga que isso não é verdade! Ele esperou, respirando fundo e indeciso. Depois se virou para ela e cochichou: essa aula está muito chata. Vou embora, você vem? Ela fechou os olhos e o adorou mais uma vez. Não, meu anjo, só queria protege-lo, só queria mesmo que você não sofresse, nem sabe ao certo se aquele menino te adora tanto quanto eu. As pessoas não te compreenderão, elas são tão más, tão maldosas, as pessoas. Cuidado, meu querido, cuidado. Fique comigo e eu te protegerei… Não, vou ficar até o fim. Pode ir. Amanhã a gente se fala, então. Até perceber Duda fechando a porta, manteve-se firme, olhar fixo no quadro negro. A bile subia-lhe pela garganta, amargava-lhe a boca. Precisava encontrar uma desculpa para Duda. Coincidência. Ele só foi embora porque andava cansado, tinha começado a trabalhar na parte da manhã. Aquilo não significaria absolutamente nada. Ele era apenas um menino, imaturo, sem as urgências de um homem adulto e sem as preocupações das mulheres maduras. E qualquer jovem da idade dele precisa de um amigo para conversar sobre assuntos de homem. O ciúme veio numa onda arrebatadora e ela teve de suspirar.

O que você tem? Por que está triste? Vamos lá, menina, ânimo, hoje é sexta feira! O menino da tampa da caneta havia chegado. Isso explicava o entusiasmo dele e Marta não sabia como se conter.

Sabe o que acontece? Eu quero o divórcio.

Duda pareceu chocar-se, fechou o sorriso. Diante do absurdo daquela frase – ela pensava que tinha sido bizarra e misteriosa – diante do que havia acabado de ser dito, Duda mostrou perfeito entendimento. Só então Marta percebeu que ele sabia o tempo todo, sempre soube. Toda vez em que ela imaginava estar falando sozinha, ele estava escutando e compreendendo. Aquilo era fatal. Significava que havia causado danos, pois o idioma era o mesmo e ele sabia de tudo. Existia mesmo a perfeita harmonia; ela acabava de destruí-la.

Não podia mais voltar atrás, tudo estava acabado. Como a gente faz quando se arrepende de algo que diz? O incômodo da separação constrangedora entre duas criaturas que se adoram transfigurava-se em silêncio e dor. Duda manteve-se atento à explicação do professor, às vezes fungava e limpava o rosto que estava vermelho. Nunca tinha ficado tão silencioso assim. Marta ficou estarrecida ao enxergar a verdade: tinha-lhe causado tristeza. Justo ela que sempre jurou protegê-lo, cometeu uma injúria e, não seria demais dizer, um pecado contra a alvura do anjo menino. Lutou, lutou tanto para não ser aquela que julgava levianamente os maiores profetas do mundo. Lutou contra si mesma e contra tudo o que tinham lhe ensinado.  Deus, o que foi que eu fiz? Destruí nossa família, nosso lar. Me libertei, meu egoísmo superou o meu mais verdadeiro amor.

Durante algum tempo, mostraram-se deprimidos e fechados, como acontece em todo final de um grande amor. Mas o pacto estava quebrado, nada mais deviam um ao outro, muito menos satisfações. No ano seguinte, matricularam-se em turmas separadas e mal se encontravam pelos corredores. Cada um deles sentiu que um pedaço do mundo já havia sido aproveitado, assim como uma infância boa que não volta mais. Causava vazio e solidão, mas existia o instinto.

Antes nunca tinha visto raio de sol triste, mas aquele que se refletia nos cabelos loiros de Duda andando do lado do menino da caneta fez com que descobrisse que se encontrava no difícil caminho de se tornar mulher.

Alguns desses contos estão no livro Caricaturas, à venda nas lojas da Amazon!
Denise Sintani
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