Crônicas

SINCEROS E ETERNOS VOTOS PARA 2016…

Feliz 2016 para a família de Fabiano, Sinha Vitória e Severino, eternos e sempre esquecidos, cada um em sua cova com palmos medida; um 2016 cheio de paz e amor para os massacrados da Guerra de Canudos – Antonio Conselheiro – e para os moradores do cortiço de João Romão – que seu negocinho cresça, que suas portinhas se multipliquem à custa da desonestidade consentida – e, especialmente para Rita Baiana e Bertoleza, muitas realizações em 2016; aquele 2016 cheio de fartura e dignidade para o Etiénne de Voreaux, em seu eterno e selvagem esforço no puxar dos vagonetes, sejam eles de carvão, de peças de metal ou de livros; estrelas lindas no céu e amor infinito para Macabéa em sua ingenuidade estúpida e toda-aceitação; que o ano novo de 2016 traga felicidade sem fim para a obscena Senhora D, que o debaixo de sua escada se torne mais largo e seu poço menos profundo; aquele grandioso 2016 para os loucos, dementes e iluminados das primeiras histórias de um diplomata poliglota, para quem a vida, em qualquer recomeço, é sempre colorida como asas de borboletas; um felicíssimo 2016 aos soterrados, aos seus netos, bisnetos; pais e filhos torturados e desaparecidos sob a sombra de uma farda, para quem o Sentimento do Mundo de um poeta não vê qualquer esperança. Para a adorável Berta – para os mais íntimos, apenas Til – um  especial 2016 repleto de escolhas, que Berta erre muito e assim seja feliz, mas que continue persistindo em escolher, pois foi agraciada por essa virtude em certo tempo de grandes idealismos.

Feliz 2016 também para todas as madames de nome Bovary, entediadas e quase mortas donas de casa, porém senhoras tranquilas fingindo-se assanhadinhas, para preservar a auto estima tão destruída pela própria aceitação, donas de casa que optaram pela família no contrato patrimonial, porque não precisam trabalhar e acreditam no poder de Deus e na proteção inconteste sobre os seus, desde que tenham pensamentos decentes e solidários que fiquem somente naquele pensamento que não pensa, de um alguém que acha que o mundo se resume a filhos bem nutridos, a churrascos e passeios com os amigos para sempre, a lugares onde bata o sol; um ano novo – 2016! – repleto de vitórias e conquistas para o senhor funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao senhor diretor, que apenas espera tranquilamente a hora de a aposentadoria chegar – meio tranquilamente apenas, diga-se de passagem, não é possível sustentar tanta família sozinho sem tantas manifestações de apreço a senhores diretores e não diretores– para que finalmente possa viver um pouco mais, de maneira honesta, uma honestidade menos escorregadia do que tem realmente sido, para manter o padrão de vida; mal sabe que de nada adianta se aposentar, pois sua vida continuará a mesma vida sem vida perto do tanto que existe para viver, seja lá de que modo for, já que nunca quis se envolver em confusões de política, a menos que acertem o preço de todo homem que tem seu preço; muito amor, iluminação e tolerância em 2016 para os habitantes de Itaguaí, aqueles que temem e odeiam a diferença dos alienados e alienistas, que acham que todos têm de seguir o mesmo tipo de vida que todo mundo acha que é de direito e dever; para aquele habitante caipiroso de Itabira que se fantasia de pirata ou presidiário para satisfazer um círculo de amigos que frequentaram a Casa Verde, a fim de tirar fotos de amostragem que comprovem sua normalidade para a mesma sociedade que o emburreceu – eta vida besta, meu deus.

Feliz, felicíssimo 2016 para os poucos que reconhecem as pessoas a quem dediquei meus votos de extrema felicidade, mas não hão de se constranger aqueles que não os reconhecem, pois decerto muitos de nós vemos alguns deles por aqui, todos os dias: tantos Lobos Neves, Bentinhos, Loredanos, Sofias e Luísas lutando para manter a aparência da frágil e triste harmonia doméstica, a que travestem de felicidade tranquila. Muita, muita paz para Paulo Honório e Fortunato, que se colocam contra o indulto de natal, a favor da pena de morte, da redução da maioridade penal, do sofrimento, do autoritarismo e da repressão violenta. Feliz 2016 para aqueles que nunca se metem em confusão, a não ser de suas varandas, nem levarão bala perdida, porque sempre estarão no lugar certo, na hora certa.

Enfim, um 2016 glorioso para aqueles que vivem de bem com a vida, para o otimista encantado com tudo que aí está; felicidades mil ao pessimista chato para quem nada está bom e que torce pelo meteoro. Para o descrente esperançoso e persistente, mais uma vez, resta a crença de que um dia – quem sabe em 2016 – haja mais tolerância, menos estupidez e alienação providencial, com poucas donas de casa que tiveram o privilégio de terem sido devidamente alfabetizadas, mas acham que tudo é tão simples de se tornar certo e bom, pois basta pensar positivo e se ater às leis de Darwin – ou às de Deus, tanto faz , se começam com a mesma letra.

Que em 2016 as palavras que dizem, que movimentam o pensamento e geralmente vão em direção contrária da que prega o pastor – as palavras – que sejam infinitas enquanto durem.

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Crônica  do senhorzinho japonês.

E aquele senhor? Senhorzinho magro, que um dia fora gordo e forte. Usava boné, calça jeans, sapatos, e parou no posto de gasolina do bairro com sua bicicleta-carroça. Hoje seus olhos pareciam estar num dia bom, o semblante maroto, como criança prestes a fazer traquinagem. Precisava calibrar os pneus da bicicleta reformada. Para onde iria esse senhorzinho, àquela hora da manhã, quando o normal seria um senhorzinho assim estar sentado em uma poltrona lendo o jornal do dia com os óculos para enxergar de perto, ou tomando sol, para evitar deficiência de vitamina D?

Próximo ao aparelho de calibragem, com as mãos sempre indecisas, hesitantes, apalpou o bolso superior direito da camisa xadrez, para procurar os óculos que havia se esquecido de trazer. Torceu uma careta de quem tinha feito uma grande burrice; ficou um tempo parado, pensando de forma grave naquele problema de calibrar os pneus da bicicleta sem enxergar direito. Um dos funcionários do posto se aproximou com ares de quem vai praticar a boa ação de auxiliar um idoso; parecia já conhecê-lo. Conformado com as gorjetas que não ganharia atendendo clientes de carro, o rapaz puxou a mangueira do calibrador e perguntou “quantas libras, ditcham”? O senhorzinho sorriu como um peixe sorri e demorou séculos para se decidir; mas em meio à linguagem misturada, entrecortada e quase incompreensível, respondeu “não sei… até ficar bom.”

O funcionário sorriu desanimado, mas já esperava aquela resposta vaga e engraçada. Regulou o aparelho, pôs o bico da mangueira na válvula e encheu os pneus da bicicleta. O senhorzinho supervisionava desconfiado e quase que com gratidão. Parecia também incomodar-se ao se ver obrigado a confiar nos olhos e gestos daquele rapaz. Em certo momento, por um breve instante, demonstrou até mesmo ressentimento.

Quem tivesse tempo de observar mais atentamente o senhorzinho japonês, perceberia seu esforço em demonstrar que tinha algo muito importante para fazer depois de calibrar os pneus da bicicleta. Olhava o relógio, depois lançava o olhar para a avenida em frente ao posto. Um empresário rumo a uma importante reunião de negócios.

Quando o rapaz do posto terminou, o senhorzinho ainda fixou o olhar nos pneus e não deixou de se certificar de que o funcionário havia travado bem a tampa da válvula. “Sim, sim, ditcham, tá bem fechado, viu, pode ir tranquilo!” O senhorzinho japonês então levantou a mão desajeitadamente em um agradecimento imperceptível, murmurou um “obrigado”, montou na bicicleta e pedalou devagar, para ir embora. O funcionário do posto sabia que não ia ganhar gorjeta, por isso apenas voltou ao seu lugar, perto das bombas de gasolina, para terminar o seu dia de trabalho.

Ao longe, o senhorzinho de bicicleta sobe a rampa pensando sabe-se lá em quê. Talvez na vida; na morte, quase ninguém gosta de pensar.

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Crônica de uma tragédia brasileira às avessas

(Como se diz neste pressuposto “pós-modernismo”, uma releitura de Tragédia brasileira, de Manuel Bandeira, que pode ser revisitado, ou conhecido na página “Debates” deste site)

Misael, funcionário do Estado, assumindo certa profissão que impressionava muito pouca gente – puro preconceito da sociedade – conheceu Maria Elvira – bancária, com corpo de pera carnuda, sem muita vontade de ser inteligente – por meio do agora cunhado, seu colega de trabalho.

Maria Elvira tirou Misael da vida desregrada e mundana de solteiro e os dois se instalaram em apartamento alugado, daqueles conjuntos habitacionais do subúrbio, com janelas pequenas e sem elevador, onde quase sempre chegava o cheiro do esgoto que corria nas canaletas da rua.

Ela dava a ele quase tudo que ele queria: um lar, casa, comida, roupa lavada, sexo regular, cuidados de mãe e companhia para alguns passeios de pessoas casadas; mandou ele tratar do mau hálito, que vinha de um canal infeccionado. Até o primeiro filho ela lhe deu.

Quando Misael se apanhou casado, pai e mais ou menos estabelecido, arrumou logo namorada. Maria Elvira não era de escândalo. Podia gritar, descabelar-se, dar uma surra na mulher. Não fez nada disso. Maria Elvira deu a Misael mais um filho.

Viveram alguns anos assim.

Daí por diante, toda vez que Misael arrumava namorada, Maria Elvira lhe dava mais filhos. Assim nasceram Igor, Marcelinho, Oswald, Rodrigo, Huguinho, Zezinho, Luisinho… e dava conta de tudo.

Misael tinha um modus operandi bem discreto: saía com as mulheres e, quando dava a hora, inventava mil e uma histórias, se mil e uma noites lhe dessem, para acabar com o caso. Para algumas, nem adeus dava. Outras ainda, mais jovens e inexperientes, choravam – isso ele contava aos amigos mais íntimos, nunca se soube se estava mesmo era contando vantagem – diziam que fariam de tudo para ficar com ele, rolavam no chão convulsas e enlouquecidas, perseguiam-no no trabalho. Daí ele dizia que não era possível, tinha família! Muitas vezes ficava apavorado de aparecer mulher fazendo escândalo no seu lar e Maria Elvira ter de lhe dar mais um menino. Ele achava mesmo era que todas as mulheres eram iguais e insanas, só mudavam de endereço.

Então desaparecia por algum tempo, ficava comportado, até arrumar outra namorada. Mas no final sempre deu certo.

Por fim, quando nasceu João Vítor, Misael resolveu fazer vasectomia.

A grande tragédia desta história foi o fato de, uma vez Misael tendo a família muito aumentada, ter contribuído para aumentar também as estatísticas dos funcionários públicos corruptos. Precisava manter o nível de vida da família: pagava escola particular, comprou carro maior, construiu a casa própria na laje do sogro e ainda conseguia levar as crianças para passear. Não dava para continuar sendo apenas honesto. Tinha até outro jeito, podia estudar mais um pouco, desenvolver a inteligência e tentar uma promoção no trabalho, mas tinha preguiça, queria sossego.

Só que descobriram as falcatruas, Misael sofreu processos administrativos e foi condenado a alguns anos de prisão. Maria Elvira fez acordo com o banco, não dava mais para se preocupar só em vender cartões de crédito com tanto filho para cuidar, não aguentava mais. Ganhou uma bolada de rescisão, e gastou tudo com o advogado para Misael.

Um grande consolo para o desastrado Misael é que, até hoje, todo dia de domingo, Maria Elvira o visita na cadeia e leva coxinhas frescas para ele comer, enquanto conversam.

Ele sempre adorou coxinhas.

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Crônica da família tristemente feliz.
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Liev Tolstoi.

É um dia feio de feriado em São Paulo, daqueles feriados que caem bem no meio da semana, sem possibilidade de emenda, o que seria a felicidade dos bancários, funcionários públicos e professores esgotados. As pessoas saem às ruas já decepcionadas com o advento do amanhã. Nada de extrapolar os limites da diversão, o trabalho do dia seguinte impera. No máximo um passeio a algum parque que seja grande, um almoço rápido para não se gastar muito, uma caminhada em pontos turísticos de cidadezinhas próximas.

Provavelmente foi o que essa família sentada à mesa do restaurante caseiro da minúscula cidade próxima a Serra do Mar decidiu fazer. Um casal velho, formado por duas pessoas não tão velhas, e algumas crianças formando uma escadinha irregular.

Destoa um pouco as crianças pequenas da maturidade do casal. A mulher está muito ocupada limpando a sujeira que o menino menor faz enquanto come a sobremesa, uma taça de sorvete. A névoa que baixa de tempos em tempos na cidade está forte lá fora, é possível vê-la através da janela pequena, com as venezianas escancaradas, o que dá a impressão de que ali é o fim do mundo.

Todo o pequeno restaurante é de madeira, dando um aspecto simples e caseiro ao lugar. O homem faz esforço enorme para parecer à vontade, como se fosse corriqueiro sair com a família para esses passeios típicos de família. Mas seus gestos são mecânicos, calculados, controlados, como se qualquer erro fosse fatal. Mantém a postura ereta, a expressão séria de quem vive ameaçado; quer controlar tudo, para que aquele programa parecesse comum e divertido. O olhar, no entanto, é o de uma carpa triste. Olhar de quem a vida toda procura algo que não quer encontrar.

A mulher um dia talvez tivesse tido seus atrativos, tendo em vista o biotipo europeu. O cabelo de cor indefinida, mais para a tintura loira, crescia sem corte e usa maquiagem colorida. Suas bochechas, já no início da flacidez inevitável, pendem um tanto para baixo quando tem de se agachar para recolocar o tênis no pé de um dos meninos, que o havia arrancado e ameaçava jogá-lo pela janela. Um grande casaco esconde o corpo de pessoa que havia tido muitos filhos, porque assim precisava que fosse, além de sua calça leg com estampa de pele de onça e as botas de cano alto, que pareciam fazer parte integrante do corpo, mesmo em dias não tão frios. Seus olhos claros, talvez esverdeados, mas fundos, tristes, apagados e sem nenhum remorso, passeiam às vezes pelo pequeno salão, à procura de algo interessante para comentar com o marido.

Os dois mantém uma comunicação fática, pois as responsabilidades e o amor que talvez um dia tivesse existido não permitiam que se desconectassem.

O homem, com o passar do tempo, parece ficar cada vez mais desconfortável. Respira fundo, às vezes busca a mão da esposa, para sentir-se casado com ela. Quer sair logo dali, talvez caminhar pela cidade, o que não levaria muito tempo, pois era minúscula. Logo depois parece relaxar, provavelmente pensando que estava fazendo um programa saudável e normal com a família, ou qualquer coisa certa que fosse de se fazer com a família e diferente de filar a boia enfiando-se na casa dos outros. Teria o que mostrar ou contar para os amigos e amigas; para si mesmo.

As crianças também já parecem impacientes, com tanta energia para gastar. Querem ver o trem! O homem parece sentir-se feliz, afinal de contas, poucas crianças no mundo desejariam conhecer um trem.

Então se esquece daquele sentimento de que estava deslocado, de que não pertencia a lugar nenhum. Não é para qualquer homem conseguir colocar no mundo crianças tão bonitas e inteligentes. Especiais. A mulher pede a ele que mande vir a conta. Enquanto ele levanta o braço naquele gesto típico de homem da família, a esposa termina de tomar o resto do sorvete que o menino deixou.

Então se levantam em silêncio, aquele mesmo silêncio constrangido, desconfortável, de pessoas que não têm muito a falar, mas muito a fazer. Aquela cidade centenária decerto abrigou muitas histórias alegres, tristes, dramáticas; amantes clandestinos ali se encontraram, embriagaram-se e terminaram a noite nos motéis da estrada. Grupos de jovens que achavam ser a vida sem fim ali repousaram das trilhas pelas matas; crianças e idosos choraram de emoção ao ouvirem o som da velha Maria-Fumaça. As crianças por susto; os idosos por saudade.

A grande família saiu do pequeno restaurante com os garotos correndo à frente. Ali podiam se soltar, não havia carros atropelando as pessoas. O casal saiu de mãos dadas, mas isso também não parecia natural, comum. Mais uma representação de uma verdade que tinha de ser verdade. Mas o homem mantém a expressão tristemente satisfeita: o programa estava dando certo e não demoraria muito tempo para acabar.

O sentimento de missão cumprida não tem preço

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