RESENHAS

ariano

UM ESCRITOR…

O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.

“A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio”.

“O escritor não se satisfaz com a realidade ao redor dele, então inventa outra…”

23/julho/2014

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Impressões de uma leitora sobre Inventário.

 Acabo de conhecer mais um pouco o novo livro do poeta Stefanni Marion – Inventário – e o “mais um pouco” talvez resuma de maneira bastante objetiva uma das várias maneiras pelas quais se podem ler bons poemas: aos poucos, várias vezes, em cada vez descobrindo novas delícias:

palavras, palavras, palavras:
junto às glândulas elas ardem,
desejam, querem aliciar, sorver,
controlar tumultos na avalanche.

Esses versos do poema “.palavras dobradas” expressam bem uma das diversas sensações que um leitor pode experimentar ao ler o livro, que é a de avalanche propriamente dita. Se fosse possível cometer o pecado de resumir um livro de poemas em uma única palavra, para mim, o que caberia a este seria INSPIRAÇÃO. As palavras jorram em avalanches de inspiração, mas não a inspiração comum, desmedida, descuidada; afinal, trata-se de um poeta, e poetas esculpem em seus textos com extrema sofisticação aquilo que os inspira. No caso deste livro, as palavras são selecionadas, combinadas, inventariadas, de maneira que essa sofisticação se apresente de modo natural, quase simples, de alguém que talvez conheça as poéticas de Hilda Hilst, Drummond, Bandeira, Augusto dos Anjos, Caio Fernando Abreu, mas constrói sua própria personalidade contemporânea, urbana.

Mesmo quando aborda a desilusão, o ressentimento, o ódio ou a tristeza – sentimentos humanos universais – com palavras objetivamente magoadas e raivosas, a combinação, desde a sonoridade fluida, até alguns ritmos cadenciados aparentemente ao acaso, o resultado é tênue, brando, com toques sutis de ironia inteligente, de um jovem de alma idosa, poderia dizer até mesmo experiente, na poesia. O falo, os dentes na goela, o cu cova rasa harmonizam-se com “revoadas de pássaros dentro da minha cabeça” e “cada pássaro é um pensamento”, de modo leve, superando qualquer expectativa. O poeta dá uma bela e tocante forma aos delírios universais, àqueles desesperos que pessoas do senso comum atribuem apenas aos loucos perdidos. Quem fala ali – o acadêmico “eu lírico” – oscila entre distanciamentos e os mais profundos mergulhos nas próprias paixões; ás vezes nos causa vertigens, noutras vezes desespero e, noutras ainda, aquele risinho reconfortante de quem pensa: não sinto sozinho este mundo biruta.

Foi uma alegria, para mim, ler Inventário, pois é um daqueles livros cujo teor nos acompanha sempre, mas nos acompanha apontando o mais profundo do humano que alguém poderia transformar em literatura, e isso reconforta de alguma maneira. A contemporaneidade sempre foi (está sendo) para mim um enigma e, muitas vezes, decepção quanto à humanidade, pois cada vez mais parece que ela se dilui em meio a superficialidades desconcertantes. Inventário nos lembra de que ainda há humanidade em nós – as entranhas, os poros, o café coando na pia – e a nós cabe expressá-la da maneira e sempre que possível. Além dessa, outra alegria que me traz: a de saber que, por essas e outras, as palavras ainda não foram totalmente esquecidas.

Isso é o que eu poderia dizer hoje sobre Inventário. Certamente, em uma próxima leitura, em um reconhecimento maior e mais profundo, talvez eu perceba que está tudo errado e que minhas impressões sejam outras, completamente diferentes. Eis a beleza da boa poesia: causar o movimento.

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Publico aqui a resenha de um amigo que acompanhou a gestação de meu livro que será lançado agora dia 19 de outubro. Totalmente suspeito, mas escreve bem e tem sensibilidade e algum conhecimento sobre literatura. Obrigada, meu amigo, adorei!

Resenha: Cartas de Zi.

Por Gustavo Martins, professor, leitor e amigo.

 Acabei de ler o original da versão final de Cartas de Zi e, depois de muito tempo, fui acometido pela vontade de resenhar um livro que acabei de ler. Devo antes, na tentativa de ser bem transparente e ético, explicar algumas circunstâncias: sou amigo da autora há muito tempo, fizemos algumas disciplinas juntos na Faculdade de Letras, éramos inclusive dois nerds mais velhos do que a maioria da moçada na época, já que tínhamos em comum o fato de estarmos fazendo a segunda faculdade, coisas da paixão do intelecto. Eu vinha da filosofia e ela da arquitetura. Eu acabava de me separar, com um filho pequeno; ela, se não me engano, estava namorando havia séculos. Isso vai fazer quase vinte anos, e a amizade foi instantânea, imediata e irremediável. Já naquela época, depois que terminei o curso, vim morar em Minas, mas continuávamos sempre nos comunicando; sempre que podia, eu vinha para São Paulo, a palestras ou a congressos e muitas vezes nos encontrávamos. O e-mail também foi importantíssimo; recados semanais e ela às vezes me enviava contos. Apenas nos divertíamos, mas a fluência e a espontaneidade já eram visíveis.

Não sou crítico literário, nem escritor, e meu nome não fará peso algum para a divulgação do livro. Então disse a ela: só quero que você saiba o que pensei dele; se quiser, pode publicar no seu blog; assim pelo menos compenso a falta de não poder comparecer ao lançamento, pois estarei fazendo um curso fora de dois meses, justamente em outubro e novembro. Assim nasceu esta resenha, em que tento me distanciar e esquecer a amizade e admiração, o que, claro, torna tudo suspeito.

Cartas de Zi, para mim, foi um grande passo no amadurecimento da escrita de uma pessoa que é bem devagar para tomar decisões importantes, ela mesma admite isso. Expor essa escrita sarcástica, divertida e moralmente discutível também foi ato de grande coragem. A personagem é uma delícia, posso dizer sob meu ponto de vista de homem; as cartas, que são o elo de ligação entre os contos independentes, são o ponto alto do livro. Zi é uma mulher que não existe, ou melhor, que finge tão bem, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente – nosso poeta português adorado em comum que o diga – e defende uma posição na sociedade muitas vezes considerada indefensável. Ela ofende, ela transgride, é preconceituosa e à toa; talvez muitos a achem ressentida, mas ela mesma não nega isso. O que a difere de todas as pessoas ressentidas é o fato de admitir o ressentimento, seu lugar social e, além de tudo, de se divertir com tudo isso, humilhando a si mesma e a fonte do ressentimento, no caso, o amante. Contudo, é uma grande armadilha: Zi mostra, como bem está resumido na quarta capa, um espelho para a sociedade, espelho este que muitos evitam, pois hoje é doloroso demais ver coisas sobre nós mesmos que não queremos ver: nossa mediocridade, hipocrisia e insignificância. No entanto, se começamos a ler, a dialogar com ela, a coisa flui, pois, ou você a odeia e quer lhe mostrar que é uma errante ridícula, ou a ama e faz dela porta-voz de suas mais recônditas percepções sobre a vida. De qualquer maneira, provoca e, devo confessar, algumas vezes, lendo as primeiras páginas, me perguntava: será que essas palavras foram indiretas para mim? É de mim que essa mulher está falando!

Agora tento resgatar uma disciplina na Letras em que fui obrigado a analisar obras literárias e que em todos os trabalhos tive ajuda de minha amiga, pois esta era a área dela. Em relação à obra como literatura, pouco posso comentar. Gosto de alguma literatura contemporânea, mas não conheço bem. Ouvi que há alguns meses a Folha de São Paulo fez uma crítica muito dura em relação aos contemporâneos. Segundo o jornal, não há nada de qualidade entre eles. Não sei. Vejo muita porcaria mesmo e penso que a literatura como um todo vive uma grande crise. As universidades são sempre muito reservadas e fechadas em relação aos contemporâneos, principalmente em São Paulo. Grandes autores, como Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu são ignorados por um conservadorismo cego. Todavia, acredito que haja gente boa escrevendo, para pessoas que não conhecem bem a literatura. Não vou me estender muito nisso, pois teria de discutir o ensino, as elites, a arte no geral. Vou me ater ao seguinte: existe uma preocupação visível com a linguagem em Cartas de Zi. As cartas, em segunda pessoa – talvez influências de escritores admirados pela autora, claro, – dão o tom de sublimação, de fingimento, imprescindível a uma obra literária. Trata-se de uma artificialidade intencional. Zi se coloca distante e próxima das pessoas contra as quais ela jorra seu preconceito e desprezo. Os focos narrativos dos contos – pontos de vista do amante, de seu filho mais velho, da sogra, enfim – não conseguem ser muito distintos; em todos eles, ouve-se a voz de Zi, pelo menos na maior parte do tempo. Mas em todos os contos, há momentos máximos de ironia e crueldade, de que todo ser humano é capaz e isso faz a leitura fluir. Crueldade em forma de palavras cruéis, vulgares, bárbaras, bem condizente com grande parte do mundo de hoje. No entanto, a fluidez de Zi é elegante, elitista, o que contrabalanceia o discurso. Às vezes nos ouvimos, a nós mesmos, falando ali, por mais que neguemos esse nosso lado escuro, primitivo, reacionário.

Por fim, a personagem Zilá, que abre e fecha os contos. Misteriosa, elemento colocado ali, a fim de que o leitor fique a pensar – claro, nem todos – o que essa Zilá está fazendo aqui? Cheguei a perguntar, ao que a autora respondeu: “o que você quiser: considere falha de estrutura, mistério, ou uma Zilá em todos nós, fora de nós e de quem queremos distância”. Seria a própria Zi, considerando a abreviação do nome?

Enfim, tentando um trocadilho infame, só lendo para saber, porém sabendo que pode nunca vir a saber.

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2 ideias sobre “RESENHAS

  1. Jorge Viana de Moraes

    Olá, Denise! Parabéns! Que surpresa não foi a minha ao ver uma colega, embora tímida, de poucas palavras no colóquio in loco, publicando textos de alta qualidade. Seria mesmo um grande disperdício manter todo este talento escondido! Abraços! Jorge Viana

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