Poemas

nick demente

LAGOA SEM ESPERANÇA.

Cada vez mais parecida com uma baleia burra
(nada demais ser baleia, mas burrice pode ter sido uma escolha)
loira, de olhos verdes, contudo.

Cada vez mais calvo e grisalho, feito sofredor
(nada demais ser calvo, mas o sofrimento pode ter sido costume)
tem cama, mesa e banho, contudo.

Que lindo par formam pousando o beijo ensaiado
apenas para provar que deus tem razão.

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BRINCANDO POBREMENTE COM ALGUMAS RIMAS RARAS…

Doente mental interna-se,
psicopata no Juquery.
Mal educado ensina-se,
em casa, na escola, aqui e ali.
O grande problema do mundo
está no ajuntamento infecundo
numa só horrível pessoa:
– demente sem educação.
Periferia, exército, pesquisas no google,
paciência, consideração… nem em Lisboa,
esses nunca aprenderão.

Tão infeliz e prisioneiro
da própria alucinação!
Tanto medo da patroa,
que esquece até que não é um cão;
mesmo porque ainda tem a prestação:
convênio médico, automóvel,
terreno, casa própria, escola
da mágica procriação.
Desse modo, não há quem argumente,
impossível manter-se são.
Estúpido, sovina, arrogante, grosseirão,
fruto milagroso antevidente
do mal estar da civilização.

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UI!

Depois de meses,ui!
como nada melhor tinha a fazer:
Susileia em Quixeramubim,
Analeia de licença maternidade
Betileia nem queria tanto assim,
Danileia já nem lhe causava saudade,
Rosileia, tem dó de mim….
Ia então com a leia que sobrou.

Mas eis que no caminho,
Reparou na braguilha aberta,
em vez de fechar devagarinho,
subiu tão rápido o zíper,
que nos seus debaixos ele todo se enroscou.
Foi aquele escândalo-chororô,
Cinquenta pontos levou.
(do começo ao fim, pobrezim).

Fatileia, Jucileia e Paulileia
fizeram até novena;
serenas, rezavam assim:
“Minha Nossa Senhora,
salvai o centro do universo,
pois que o mundo, no seu reverso,
Não é mais o de outrora,
Minha Nossa Senhora, tem dó de mim.”
(In: poemas de escárnio e maldizer)

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CURRAL

Então anoitece na fazenda-subúrbio,
e o boi castrado recolhe-se
no quadradinho do seu curral,
depois de pastar e dormir o dia todo:
tão cansado…
porém tranquilo, pois toda a vida que tem
está em ordem e exposta em seu mural.
Esconde-se, omite-se, engana-se,
só deixa ver aquilo que expressa
a pseudofelicidade estrutural
de um dia sem convite para festa no curral vizinho.
Bezerrões, bezerros e bezerrinhos,
fazem do doce lar-cercado o carnaval;
gritam, esperneiam, derrubam tudo,
mas para bezerrinhos isso até que é natural,
afinal concebidos foram para
perpetuar o ciclo de família caricatural.
Tudo certo, tudo em ordem no terreno:
boi castrado e vaca mansa
dormem a vida inteira e o domingo
no quadrado-lar de seu curral.

Foto de capa

Antes, por causa do ângulo:
Bexiga loira prestes a explodir.
Agora murchou:
Estica o pescoço, para parecer pescoço,
Não sorri muito, para não mostrar os dentes feios,
nem as rugas de cinquenta e poucos anos
que cobrem a flacidez do queixo, das bochechas,
de alguém que gosta muito de comer, beber, perdoar e reproduzir,
caso a maldade não estivesse nos olhos de quem vê.

Ao lado, sempre o frescor de um lindo menino,
que poderia ser seu neto,
Além disso: segurança plantada em terra ruim.

Para manter gato castrado, quieto dentro de casa,
faça-lhe muitos meninos e dê-lhe muito carinho.
Perdoe, caso goste mesmo de gatos,
ainda que castrados.

Os olhos nem são tão horríveis,
mas para quê serve tanto olho, meu deus?

Para fazer conjunto com a testa enorme,
onde nascem lindos galhos secos de pitangueiras,
galhos tantas vezes perdoados;
para espantar a tentação de tantas chavascas,
que morreram sem oração.
Para pousar como o luto de tua liberdade,
a boneca medonha da cidade americana.

A boneca medonha tem um rebento!
Também pescoço, uma vez esticadas as pelancas.
Inúteis olhos profundos e claros.
Mas continua sendo uma boneca medonha e estúpida.
O pobre diabo quer se convencer de que tem algo de bonito
a mostrar para as acoabas que rondam seus tristes mistérios.

Em alguma coisa lhe deve aliviar a insistente tentativa
de achar um ângulo menos feio em um maracujá murcho.
Até os maracujás murchos servem para ser olhados,
dependendo de tudo que já se olhou no mundo.

Agora tem religião,
Jesus e paz no coração:
um dia há de ter luxo e riqueza.

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Só para amigos…
Comeram.
Afogados morro abaixo,
sanduíches de pernil
numa tarde deprimida.
Momentos.

Beberam.
O homem exala embriaguês,
latinhas de cerveja,
sobre a mesa de subúrbio.
Constrangimentos.

Pousaram.
A mulher lambe os dedos engordurados,
o rosto italiano inchado de perdão
sobre o pescoço-gordo farto.
Fingimentos.

Estacionaram.
O terceiro foi o último, para ainda ser possível
enfiarem-se nas propriedades alheias
dos amigos perfeitos sem gastar tostão.
Planejamentos.

Deslizaram.
Engoliram.
Esqueceram.

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Pessoas lanchando num fim de dia.

A pobre senhora não foi muito agraciada
Pela beleza natural, nem pela inteligência.
Mas chupa bem o próprio dedo sujo de gordura
com toda a cara inchada, redonda e branca
(acabou de comer sanduíche de restos de pernil
servido pela dona da casa e esparramou-se a maionese).
Caiu até mesmo uma gota de catch-up
no meio dos dois seios.
Sobre um deles
jaz o triste desenho de um beija-flor enrugado.

O pobre senhor não pinta mais o cabelo nem o cavanhaque imundo,
com a tinta da farmácia,
nos olhos, a falsa alegria de ébrio muito responsável…
come um sanduíche apenas,
talvez não queira alcançar o inchaço da consorte,
procura manter dignamente a visão do próprio falo,
quando de pé ou sentado.

(barriga cresce, falo desaparece).

As crianças gritam em torno da mesa de falso granito,
estão cansadas de assistir à TV.
Enfiam-lhes miolos de pão goela abaixo,
para que aguentem mais um pouquinho,
Precisamos curtir a vida com os amigos, meus filhos!

O fim de semana é quase fim.

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Conjecturas sobre o destino de um foragido.

Fugiu de casa,
largou os inúmeros meninos,
foi morar com Susileia…

Deixou a jaca obtusa sobre a mesa,
aberta pela metade,
por causa de uma novíssima fruta transgênica…

Saiu de casa apressado,
foi atropelado,
por um treminhão desgovernado.

Escapou de bala perdida,
ajoelhou, agradeceu
e se converteu: virou pastor do reino dos céus.

Criou juízo,
parou com a vida anormal,
assumiu a máscara de bobo da corte de Maria Antonieta…

Morreu triste, de tanto não sentir solidão.

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Mente adiposa de um homem vazio. 

Esse patético frase-feita, senhor Bandeira, diria assim:

Tanto faz a maçã velha, o morango suculento, o espaguete, o peixe cru,
farofa, piscina de bolinha, loiro-pink, púrpura-acaju…

– O que eu vejo é o buraco.

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Homem-máquina genial.

Fenomenal
esse teu jeito de dissimular
para pseudo amigos adotados por necessidade:
inteligência, equilíbrio, sanidade, o passeio-simulacro em dia nublado.
Quadro-ensaio do amor manso,
mas olhos que não mentem a própria miséria,
mero sonho de ideal.

Magistral
esse teu jeito de se esconder
por detrás dos teus pequenos bens duráveis:
smartphone, tablet, o pouco carro para tanta família.
Conectado ao mundo,
mas preso, rédea curta e coleira, feito vira-lata indomável,
patético animal.

Colossal
esse teu jeito de fingir
em meio ao monumento feio que construíste:
tatuagem-compromisso, anel de ouro, o feio cômodo reformado para os temporãos.
Motocicleta, símbolo de liberdade,
mas sem permissão para sair em dia de chuva,
voo infeliz de garça-real.

Fundo-de-quintal
esse teu jeito de compor
a música perfeita para tuas inúmeras vacas de presépio:
esposa-isca, núcleo familiar, os tristes gestos de malvado bom cidadão,
piadas estúpidas, pouco caso, soberba,
mas vida-privada comédia pública,
homem-máquina-cereal.

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Poema infame de escárnio.

Nasci.
Mamãe não me queria porque, já guri
eu aprontava aos montes para ser diferente.
Sempre proclamei que queria ser livre como colibri,
embora feiozinho, tolo e ignorante.
Então, bem cedo, de casa fugi:
em busca de mulher para cuidar de mim,
nem que fosse bem distinta de mamãe.
O importante era ser boa e decente por dentro,
foi a única lição na vida que aprendi.

Por vários caminhos me perdi;
uniforme de office-boy, carteiro, mecânico,
até farda de soldado eu vesti.
Me apaixonei uma única vez,
ainda estudante, enquanto servia, lá em Itapevi,
o nome da moça era bem difícil – Susileia,
por isso eu a chamava de Marli.

Cresci.
Acabei me casando com Joseli,
senhora assanhadinha de olhos verdes e cabelos de sagui,
que a cada ano, na hora de parir,
mais semelhante ficava a um enorme e loiro javali.
Uma linda família construí com a mansa e segura vaca-rubi.
Contudo, verdade seja dita, muitas outras vacas eu comi:
Vanderleia, Marileia, Andreia, Tarsileia, Dulcineia, Sara Lee…
até uma dona que sabia falar tupi.
Ah! Quantas lindas acoabas não lambi!

Promoção no trabalho,dei duro, algumas desonestidades cometi,
mas ninguém é de ferro, e posso dizer que venci,
mamãe no céu, que Deus a tenha, de mim se orgulha,
com essa família grande e formosa que plantei e colhi.
Outro dia mesmo, para me fazer de grande pai,
a família quase toda reuni
para um passeio em família, de trem, a Jundiaí.

Envelheci.
Agora não saio mais daqui.

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Clichês do tolo calculista.

– A união faz a força!
mas também faz neném…

– A vida é o bem mais valioso…
mas trepa-trepa é gostoso – também.

– Liberdade não tem preço,
mas se ameaça meu arroz com feijão,
dela logo me esqueço.

– A família é tudo para o homem,
mas, na hora de deitar, come qualquer coisa
que os outros comem.

– Somos exemplos para os filhos!
empecilhos, andarilhos, maltrapilhos, homens-estribilho.

Previsível paradigma, pobre comum,
Na patuscada trivial, vê-se especial…
vulgar, cansativo, desgastado, sem graça,
estereótipo do banal.

Por mais que – dissimulado – vista a carapaça,
é sempre assim este homem frase-feita:
patética catacrese, pega dois de olho em um.

“ – Trocas de olhares, juras de amor…”
mas logo de seu próprio tópico-engodo
depois de um ano também se esquivou.

“- Promessas de ficarmos juntos a vida inteira…”
mas correndo de novo se agarrou
à segurança da fértil velha parideira.

Chato, repetitivo, chavão,
Monótono, tolo bordão.

– A maldade está nos olhos de quem vê.

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Consorte (ou sem sorte) do homem-clichê.

Ela pensa que seu mundo é mundo,
mas no fundo
sabe que ele não é nenhum amor.

Arrumou até doença grave,
mais motivos para ficar.

Decente e estúpida
sofreu morte súbita
no Arpoador.

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adoro transar com grávidasA boneca medonha e seu cônjuge.

Quando ele olha a sua linda boneca medonha
A linda boneca medonha olha para ele
e diz:
– Te amo… meu love…

Tatuagem, cabelo dividido do contrário,
mas é pura aceitação.
Às vezes finge que briga,
faz a casa cair, blefa de montão…
mas é pura aceitação.

Quando ela, entre quatro paredes e de barriga, diz a ele:
– Não tem dó, meu Romeu?
Ele, para fingir a alegre e harmoniosa instituição,
responde:
– Dó? Mas e eu?

Copo na mão, saia curta e blusinha rosa-choque,
mas é pura aceitação.
Às vezes finge que não quer mais,
mas quando chega a enorme conta do cartão
esquece tudo; é pura aceitação.

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Inspiração de pintor.

Estou a contemplar a burrice
da janela do décimo quinto andar…
lá embaixo burricezinhas gargalham felizes
como se não passassem
de meras burricezinhas
de irresponsáveis e burras burrices maiores.

Então pinto meu quadro sem ilusão com alusão ao poeta:
o senhor problema, sua senhora e seus vários probleminhas
no almoço de domingo pós-natal
– frango assado e macarrão –
na frente da TV. O mundo…
O mundo issozinho, assimzinho.

Há um lado que não existe.
E ele é todo convexo, paradoxo, ortodoxo.
Bicho paleontológico em busca do elo perdido.

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Frutas ao senhor Polzunkov Polzat
(primo bem distante do personagem de Dostoiévski)

Tem outra coisa:
Como nunca teve nada, qualquer coisa serve.
Até um grande e sem graça leitão com maçã na boca.

Frutas, frutinhas ou frutonas que se deem ao desfrute:
Moranguitas, laranjonas, jabuticabinhas, melancias escandalosas…
desde que nunca lhe falte a cotidiana sobremesa:
fios loiros de ovos a escorrer sobre a saliente testa da jaca obtusa.

Este é o senhor Polzunkov Polzat,
que nunca comeu melado,
e quando come se lambuza.

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Poema inútil.

E quantas árvores não matei então,
para deixar aqui registrado apenas isto:
– Sarjumento, saiba que há quem respeite a juba do leão
e ache bem mais engraçado
o ralo cabelo loiro
do mico leão dourado.

Será que adianta falar algo que preste para alguém tão resolvido?
– Não. Sarjumentos resolvidos falam outro idioma: o hipocrês.

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Poema-tédio do falso gentio.

Olhos tristes,
boca torta,
boca torta,
olhos tristes.
Nunca vi olhos tão tristes:
segurando o bebê,
abraça sua hortaliça branca no cio
e bebe cerveja no copo vazio.

Pousa para a foto
com a sonsa amiga melodramática,
que faz faxina dançando pagode,
de sábado.

Olhos tristes,
vida morta,
vida morta,
olhos tristes.
Nunca vi olhos tão tristes:
mas assim dessa forma calcula, prevê…
se sente salvo do vento-desvio,
agarrando-se à segurança do navio.

Pousa para foto
com o amigo-gravata
que cozinha o ossobuco com polenta
de domingo .

Olhos tristes,
boca morta,
boca morta,
olhos tristes.
Nunca vi olhos tão tristes:
Em frente à tevê,
Homem-míni-fumaça, sem feitio,
simulacro de controle sobre o desvario.

Pousa para foto
com gordos meninos bonitos,
mera ilusão de sanidade
numa noite de sábado.

Olhos tristes,
Vida torta,
Vida torta,
Olhos tristes.
Nunca vi olhos tão tristes:
ensaia o sorriso sem perceber,
forçado, contido, ranço de fastio…
pobre homem triste que evita o desafio.

Pousa para foto
com a moto de segunda mão,
mera ilusão de liberdade,
numa tarde de terça.

Olhos tristes,
torta morta,
torta morta,
olhos tristes.
Nunca vi olhos tão tristes:
está ali por querer,
homem que já até perdeu o brio,
mal finge conforto no beijo macio.

Pousa para foto
com a fértil porta-morta
que quase sem querer faz neném
todo santo dia.

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Poeminha sobre a prisão domiciliar.

Demorando-te assim, homem triste,
a terra há de comer
aquilo que cuspiste
no prato de tua mulher.

Desmascarado,
envergonhado
e nu,
esconde-te por trás de tuas burrices perfeitas.

Escondendo-te assim, homem triste,
o mundo há de prever,
como sucumbiste
pelo caldo e pela colher.

Engessado,
massacrado
e cru,
entrega-te para dentro de tuas façanhas rarefeitas.

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Homenagem a Jose Lee Jones (vítima de número 1). 

De Macabéa a Miss Brill,
é pura idiotice,
Sem saber que é.
Empenha-se tanto que
se desistisse
seria mais mulher.
Não seria apenas aquilo que está.

Para quê?
Ora, não vê?

De Eugênia a Madame Bovary,
É pura esquisitice.
Sem decidir o que é.
Aceita tudo e tanto que
se assim não reagisse,
seria uma qualquer.
E não estaria onde está.

E onde está?
Ora, não crê?

Firme na Instituição, no carro, no fogão,
Ao lado de Charles, Bentinho ou Brás.
No meio dos rebentos, dizendo tanto amor
na cama, tira a roupa e zás-trás.
De Ceci a pobre Julie d´Aiglemont.

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Singeleza de perfumaria.

Vamos falar de amor…

Que denúncia, sarcasmo e dor
não vendem poemas.

Então vamos falar de amor…

Pois o de-dentro-delas, sem cor
não vende poemas.

Dessa forma, vamos então falar de amor…

Embora alguns poetas, seja lá como for,
não vendem poemas.

Vamos então agora, finalmente, ao amor…

Já que versos sem ardor
não vendem poemas.

E ainda não falei de amor…
Então vamos falar do arco-íris e do beija-flor.

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